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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

COMO AS ANEDOTAS

Com a vertigem, o frenesim, a desatenção que vão por aí, há quem pense, talvez mal,  que  os escritos têm de ser como as anedotas. Têm de ser curtos. Já viram o que seria se elas fossem longas? Quase ninguém  lhes acharia graça, de nervosismo, de cansaço, por tanta espera. Oh homem, ou mulher, despacha-te, que tenho mais que fazer.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O CADEIRÃO

Andara uma vida inteira a sonhar com o cadeirão. O que ele sofreu por ver o tempo passar e sem ver o sonho realizado. Mas não perdia a esperança. Havia de chegar a sua hora. E é que chegou,tarde para muitos,mas para ele não. Ali estava ele,finalmente,no cadeirão,no seu cadeirão. Sentia-se ali tão bem,que o não largou durante dias e noites. Passava os olhos,com vagares,pelas paredes,pelos móveis,pelos retratos dos antecessores. Fechava-os,de quando em vez,para dormitar um pouco,pois tinha de estender ao máximo aqueles momentos deliciosos de posse recente. Ao fim desses dias e dessas noites,sentiu-se inteiramente compensado por tanta espera, e decidiu pôr mãos à obra. E a primeira coisa que fez ,foi ir ver o cofre. Compreende-se muito bem esse passo,pois sem dinheiro não se pode ir muito longe. E apanhou um grande choque. O cofre estava quase vazio. E agora?,e esta? Querem ver que tenho de tirá-lo do meu bolso. Era o que faltava. Mas eu hei-de me desembaraçar. Cheguei até aqui depois de tantas barreiras saltar,não será esta que me há-de trair. Pegou da pena e escreveu a sua primeira missiva. Tinha planeado ser de outra maneira,uma maneira que pusesse na sombra as do passado,mas não podia ser. Mais tarde,resolvido esse magno problema de carestia,iriam ver o que era um plano. Naquela hora grave,tinham de compreender. Na missiva,na sua primeira missiva,pedia-se,simplesmente,miseravelmente,dinheiro,esse vil.

A CARTOLA

A feira estava a terminar. Naquele ano,o negócio fora muito fraco. Tinham escapado,apenas,as barracas de comes e bebes. As ruas das roupas,dos sapatos,das quinquilharias metiam dó. Só lá de onde em onde, é que aparecia alguém a querer saber o preço,ficando-se,quase sempre,por ali. Os carrocéis,os cavalinhos,os automóveis estavam às moscas. Os miúdos insistiam,berravam,mas os paizinhos não se comoviam.
O circo ia pela mesma. Bem se esforçavam os arautos das maravilhas,mas os mirones não estavam para ali virados. Não queriam ouvir falar de trapézios,nem de arames,nem de malabarismos,quanto mais ver. Lembravam-lhes a ginástica que todos os dias tinham de fazer para equilibrarem as finanças. Os animais não os atraíam. Constava,até,que passavam fome. E as grades não pareciam,também, de confiança, por estarem muito atacadas de ferrugem.
Num último esforço,anunciaram uma novidade,uma novidade de estarrecer. Venham ver o homem da cartola,o homem das grandes surpresas. Carros percorriam a cidade,esquadrinhando todos os bairros,mesmo os de lata. Venham ver,venham ver,que é quase de graça.
O circo encheu-se. Houve outras intervenções,mas coisa rápida,a despachar. O suspirado momento chegou e fez-se um grande silêncio. O homem vinha de preto. A cartola era minúscula,pouco mais do que um dedal. Mostrou-a em todas as direcções,acariciado-a repetidas vezes. Depois,ao toque de uma comprida e fina vara,que roçava o tecto da tenda,sairam dela,em rápida cadência,objectos incríveis,que se iam amontoando.
O espaço mostrava-se acanhado para tanta bugiganga. Por acção da poderosa vara apareceu um maior. Mais objectos esquisitos foram saindo,sem descanso. O circo foi crescendo,crescendo,irresistivelmente. Atravessou fronteiras,atravessou mares. Ocupou o mundo todo. O maior espectáculo do mundo.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

CARA RIDÍCULA

Ele andava muito ralado e não era para menos. É que já há dois tristes anos que não fora passar,pelo menos, uma mísera semana no estrangeiro,quer dizer,no país ali ao lado do seu. E estava a ver,coitado,que naquele ano iria acontecer o mesmo. A vida estava cada vez mais cara e o patrão não havia meio de dele se condoer.
Quando as férias acabassem,que cara poria ele lá no emprego,ao ouvir falar os colegas das delícias das suas em Cancún,nas Bahamas,em Cuba,em Miami,nas Seychelles,e assim por diante? Sim,que cara ele mostraria? Uma cara ridícula,certamente,se ele,coitado,a contrapor,quando muito,só poderia dizer que tinha gasto essa mísera semana em Paio Pires ou na Baixa da Banheira,sem menospreso,claro, por estas duas honradas terras.
Teria de ficar calado,reduzido à sua insignificância,engulir em seco,e começar a pensar em mudar de emprego,que naquele já estava aviado. Nem colegas,nem patrão lhe dariam a mínima importância. Não era ali mais do que um zero à esquerda. E então,minhas ricas encomendas. Nunca mais sairia do degrau de acesso,da soleira da porta.

terça-feira, 16 de julho de 2013

FOME OCULTA

Eram duas comadres que já há muito se não viam,coisas que acontecem a quem tem a sua vida.
Ai comadre,tenho andado muito mal. Não sabia o que tinha. Eu dormia,eu descansava,eu comia,mas não me sentia nada bem. Era um mal estar,que não o queria para a comadre. Um dia,não podendo mais,fui ao médico.
E sabe o que ele me disse? Que o que eu tinha era fome. Fome,eu? Mas,doutor,podemos ter muitas necessidades,mas lá em casa não se passa fome,graças a Deus. Mas o certo é que a senhora tem mesmo fome. Não dá é por ela. É uma fome oculta. Que coisa tão esquisita. Pode explicar-me? Com todo o gosto,aliás,é a minha obrigação.
Sabe,a nossa comida tem de ser muito variada,de modo a garantir a ingestão de coisas essenciais,na quantidade necessária.  E na comida da senhora há uma coisa essencial que está entrando em quantidade insuficiente.
E eu,comadre,de boca aberta. Então,doutor,o que é que tenho de fazer? E ele lá me passou uma receita,recomendando-me que eu cumprisse o que lá ia. É o que tenho feito há já uns dias. Pois estou a passar muito melhor,fique a comadre sabendo. O médico disse que a cura completa ia levar o seu tempo. É o que eu espero,pois como andei,aquilo não era viver.

sábado, 13 de julho de 2013

IRMÃOS FÓSSEIS

Como se sabe,são muitos os modos de manter,temporariamente,o carbono fora do seu ciclo activo. É o caso da matéria orgânica dos solos,é o caso das árvores,das madeiras,das mobílias,da cortiça. Enquanto não houver decomposição microbiológica,quer por via aeróbia,ou anaeróbia,enquanto combustão não ocorrer,o carbono permanece como tal,e não como anidrido carbónico,o seu,por assim dizer,destino final. Assim,de modo tímido,todos esses materiais imitam os seus irmãos fósseis,quando os deixam lá estar no seu sono de milhões de anos.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

DE ONTEM E DE HOJE

Guadalupe,nome de santuário. Estendais de roupa a secar. Uma estrada de terra batida,serpenteando entre azinheiras. Aqui,e ali,gado fazendo pela vida. Uns pedregulhos.ao alto,em formação circular.Talvez um outro santuário. Os bichos maus,de ontem e de hoje.

sábado, 6 de julho de 2013

CRÓNICAS RECEITAS

Para o mesmo mal,um mal que se eterniza,as receitas não têm mudado. É isto uma clara evidência de que não têm sido aviadas ou que são necessárias outras. Assim,nada feito. Ainda se pensara que água mole em pedra dura acabasse de a furar. Pura ilusão. O que se tem visto são apenas umas ligeiras mossas,nada mais.
Não haverá volta a dar-lhe? A disposição é só representar? Está bem à vista que muitos o fazem primorosamente,em qualquer palco,na rua mesmo. Talvez por isso muitos teatros tenham ficado às moscas. Para quê lá ir se se tem espectáculo de borla a cada passo,alheio ou próprio? Uma fartura.
Parece, assim,que as receitas estão desajustadas. Têm de surgir outras,mais de acordo com a actual natureza. Mas pode acontecer que,entretanto,todos se transformem em anjos,para quem as crónicas receitas seriam destinadas.

sábado, 29 de junho de 2013

LEI DE AÇÃO DAS MASSAS

Mais uma rutilante jóia a adornar quem já muitas exibia. Mais um presente para quem já muitos recebera. Será isto natural fruto da lei de ação das massas.

terça-feira, 18 de junho de 2013

CHÃO SAGRADO

São apenas uns palmos de terra. Vêm todos eles de um tetravô. Que a sua alma descanse em paz,pois têm-me dado um grande jeito. Nem todos os pedaços que amanho têm esta origem. Aquele além ia-me custando os olhos da cara. Não descansei enquanto não pus nele a minha marca. As horas que eu e a minha mulher gastámos a fazer contas e a refazê-las,sonhando ao mesmo tempo. Mais um ano e será nosso. E assim conteceu. Mas não foi só aquele. Lembrei-me de o citar porque é o melhor. Não é por ter sido eu a comprá-lo,mas está ali um belo tracto. É pena serem todos pequenos,mas juntos ,dava para ter uma boa quinta.
Têm-me dito que devia trocar alguns,de maneira a formarem-se parcelas de tamanho mais azado para os granjeios. Sempre que me falam nisso,fico fora de mim. Eu,abandonar o chão sagrado dos meus antepassados,e mais o que acrescentei com,pode dizer-se,sangue,suor e lágrimas? Nunca,enquanto viver. E os meus filhos,estou seguro disso,lêem pela mesma cartilha. Além do mais,onde é que se iriam encontrar terras como aquelas que nós temos? Não há melhor aqui nas redondezas. Só as carradas de estrume que eu lá tenho espalhado,para não falar dos químicos,que me têm custado bom dinheiro. Desentranham-se em milho e batata que é um gosto. E a qualidade do vinho? Se produzisse mais,faziam bicha aí à porta.

sábado, 1 de junho de 2013

MAL DA VOLTA

Mesmo pujante,aquilo era pasto que já não servia. As vacas que ali tentassem fazer pela vida perdê-la-iam antes do tempo próprio. A erva estava doente. Mas de quê? Só muito tarde se veio a saber. Mas não ficaram à espera,pois havia que sustentar a família. Se ali não podiam permanecer,talvez noutro local,mesmo ao lado,as vacas medrassem como convinha. E foi o que observaram. Mais ainda verificaram que,decorrido certo tempo,o local maldito deixava de o ser. Era como se tivesse de ir dar uma volta ,para distrair ou para descansar,e como mal da volta ficou a ser conhecido. Não interessa aqui dar notícia do porquê de mal tão estranho. Basta dizer que lá,passado esse certo tempo,a terra se recompusera,fornecendo ao pasto o alimento necessário para confortar as vaquinhas. Faz isto lembrar movimentações bem conhecidas. E é vê-los,sós ou acompanhados,tocando,ora ali,ora acolá. E um dia,dada uma volta,regressam ao local de partida. Os sítios onde fazem pela vida parece,a dada altura,virem a padecer de um mal,um tanto ou quanto indefinido. Precisam também de que algum tempo se esvaia,para que os sítios,ou eles,se restabeleçam. Para isso,vão dar uma volta

quinta-feira, 30 de maio de 2013

BASTA UMA VEZ

Acreditaria numa outra vida,certamente,o faraó. Um dia,havia de ressuscitar. E logo ali,à sua muito poderosa mão,queria ele ter todas as coisas que lhe embelezaram a sua rica vida.
Para além de jóias,muitas jóias,ou outras coisas de igual valor,de todas as cores e feitios,um barco devia estar pronto para ele,imediatamente,poder passear no seu saudoso Nilo.
E para um barco do faraó,só uma gigantesca pirâmide servia. Não era isso dificuldade que o faraó não resolvesse. Os escravos que necessários fossem,bem depressa ele os arranjaria,dentro ou fora de portas. De resto,para o faraó,não havia porta a que ele não chamasse sua. E se , acaso,encontrasse uma cerrada,o que não era de admitir,um simples safanão dos seus chegaria para a porta ficar escancarada. Algumas,até,se abririam por si,à simples lembrança de que o faraó viria aí.
Como não haveria de querer voltar o faraó? Tinha sido a sua vida,uma vida cheia de prazeres,uma vida de invejar. Só se ele fosse parvo,e parvo é que ele não deveria ser. Fosse ele um dos seus muitos escravos,nessa é que ele não cairia. Livra,pensaria ele. Para sofrer o que eu sofri,basta uma vez.

INCORRIGÍVEIS

Das duas,uma,ou tinham lá em casa um muito melhor,ou,então,ainda,um dia.o haviam de possuir.  Incorrigíveis.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

PASSAM DE LEVE

Surgem pela noite,imitando os morcegos. Asas não têm,mas passam de leve,como voando. Fazem pela vida,honestamente. Trazem flores,a sua mercadoria,bem acondicionada em invólucros transparentes. Onde as expõem? Procuram mesas onde se coma. Privilegiam casais de todas as idades. Não insistem. Recearão importunar. Entram,vagueiam,voejam,sem uma palavra. Palavras para quê? Alguns não as saberão e outros não lhes sobrará ânimo para as soltar. Uns serão afortunados por tocarem nos sítios certos. Outros cansar-se-ão vãmente. Mas virem de tão longe para este peregrinar é coisa triste.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

RITMO DAS ONDAS

E as ondas avançariam e recuariam,como sempre o teriam feito,e não deixariam o que quer que fosse na areia,a não ser espuma,uma espuma muito branca,como,aliás,sempre o teria sido,desde que aquela praia se teria formado ali.
Algumas gaivotas passeariam sobre a areia molhada,tal como o teriam feito noutras alturas,elas,
ou outras da sua geração,ou de outras do passado estendido,quando o tempo assim o permitisse. E talvez lhes apetecesse acompanharem o ritmo das ondas,recuando ou avançando com elas.
Nada perturbaria aquele sossego,aquele avançar e recuar das águas,aquele recuar e avançar das gaivotas,se a elas lhes apetecesse,porque não havia gente por ali,nem em parte alguma.