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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

INCONSTÂNCIA

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu !

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava !
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando...

FLORBELA ESPANCA
Sonetos
35ª Edição
Bertrand Editora
2005

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

SENHORA NAGONIA !

Georges! anda ver meu país de Marinheiros,

O meu país das Naus,de esquadras e de frotas!



Oh as lanchas dos poveiros

A saírem da barra,entre ondas de gaivotas!

Que estranho é!

Fincam o remo na água,até que o remo torça,

À espera da maré,

Que não tarda aí,avista-se lá de fora!

E quando a onda vem,fincando-a a toda a força

Clamam todos à uma:"Agôra! agôra!agôra!"

E,a pouco e pouco,as lanchas vão saindo

(Às vezes,sabe Deus,para não mais entrar...)

Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!

Içam a vela,quando já têm mar:

Dá-lhes o Vento e todas,à porfia,

Lá vão soberbas,sob um céu sem manchas,

Rosário de velas,que o vento desfia,

A rezar,a rezar a Ladaínha das Lanchas:

Senhora Nagonia!

Olha,acolá!

Que linda vai com o seu erro de ortografia...

Quem me dera ir lá!
...

ANTÓNIO NOBRE

POESIA COMPLETA
CÍRCULO DE LEITORES
1988
TUDO É FOI
Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia,
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento,tempo esgotado,
fluidez sem transparência,
presença,espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.


ANTÓNIO GEDEÃO

Poesias Completas
(1956-1967)
Portugália
1978

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

SEM UM PATACO

Este António José de Almeida,com quem lido há meses,é uma força generosa e simpática...Há outra coisa que o honra:acredita,começa sempre por acreditar em toda a gente. Uma grande generosidade,um grande arcabouço e uma voz poderosa e magnética...Ainda hoje lhe ouvi dizer que não tinha dinheiro para ir de carro para casa.
Em S.Tomé ganhou uma pequena fortuna:mãos abertas,deu-a,levaram-lha:ficou sem um pataco. -Ontem passou por mim um figurão que me disse,de grande charuto na boca,e acenando-me com dois dedos:- Adeus doutor...-e que tanto dinheiro me levou! E eu não posso fazer um fato novo....Deu tudo à república. Tem-lhe sacrificado a vida e os interesses.

RAUL BRANDÃO
Memórias(Tomo II) Vol.1 p.138-9
Relógio D'Água Editores,Março de 1999

FULVOS E BONITOS

"....Na sala de espera na terceira classe entre bagagens e cobertores de lã,dormem,aos montes,rabuzanos que vão trabalhar para o Alentejo,os varapaus de castanho atravessados,os tamancos ao lado,os pés descalços e um cheiro a lobo que se evola das suas saragoças montanhesas. Nostalgicamente,alguns tasquinham um pão de milho horrível,com sardinhas assadas entre as pedras.
E os mais novos,quinze anos,dezasseis,dezoito anos,todos alegres daquela primeira migração às sementeiras de lá baixo,esses não param,examinando tudo pelos cantos,espantados,deslumbrados,fulvos e bonitos como bezerrinhos de mama;e ei-los estacam diante dos relógios,dos aparelhos do telégrafo,a sala do restaurante cheia de flores,os chalés de hospedagem e os pequenos jardins dos empregados da estação... Dois ou três arranham nas bandurras fados chorosos,melodias locais duma tristeza penetrante,em cujos balanços,gemidos,estribilhos,se acorda o murmúrio dolente das azenhas,vozes da serra,risotas da romagem,balidos do polvilhal que entra no ovil,todas as indefinidas virgindades da Beira,núcleo de força,e ainda agora a mais impoluta ara da família portuguesa...."

De O PAÍS DAS UVAS
O FILHO
FIALHO DE ALMEIDA
CÍRCULO DE LEITORES
1981

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

OS DEZ MIL DE CIMA

...É esta fresca ralé que fica em Londres:de modo que apenas a humanidade superior,os dez mil de cima,como aqui tão pitorescamente se diz,partem para os seus castelos,as suas vilas à beira-mar,ou os seus yachts-Londres,apenas habitada pela turba abjecta,torna-se sobre a face da terra como a lamentável Cacilhas....
Eça de Queirós
Cartas da Inglaterra,O Inverno em Londres p.35 Livros do Brasil

JOSÉ MATIAS

Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o enterro do José Matias - do José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu amigo certamente o conheceu - um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode crespo de paladino sobre uma boca indecisa de contemplativo, destro cavaleiro, duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso, muito afeiçoado às idéias gerais, tão penetrante que compreendeu a minha Defesa da Filosofia Hegeliana! Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da Rua de S. Bento, tiritava dentro duma quinzena cor de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominavelmente a aguardente...

Um conto de Eça de Queirós

VASCO DA GAMA - SINES

Vaco da Gama

PORTAL MANUELINO - IGREJA MATRIZ DA GOLEGÃ

Portal manuelino

DE TARDE

Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que,sem ter história,nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu,descendo do burrico,
Foste colher,sem imposturas tolas,
A um granzoal de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois,em cima duns penhascos,
Nós acampámos,inda o sol se via;
E houve talhadas de melão,damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas,todo púrpuro,a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

CESÁRIO VERDE

PARA NADA

"Neste mundo conturbado,quem tem muito dinheiro,por mais inepto que seja,tem talento e préstimos para tudo;quem não tem dinheiro,por mais talento que tenha,não presta para nada."

Padre António Vieira (1608 - 1697) DaWeb:www.ronaud.com

É, afinal,o muito tens,muito vales,nada tens,nada vales. Vieira viveu no século XVII. Pelos vistos,a coisa não muda. Não admira,pois,por um lado,a corrida desenfreada aos teres, e, por outro,a pressa incontida em anunciá-los,sem faltar um,por mais maneirinho que seja,em presença de um qualquer,desde que tenha ouvidos que oiçam.

domingo, 10 de janeiro de 2016

PITARANHA

"Mais adiante,à esq.,o lugarejo de Pitaranha,entre penhascos de difícil acesso,e curioso,como os Cabeçudos,pelo aspecto primitivo das habitações. Cónicas,
mesquinhas,cobertas de colmo ou giestas,lembram palhotas....Segundo uma anedota célebre,Pitaranha foi elevada á categoria de cidade na imaginação ardente de aquele general espanhol que,ao escrever para Madrid,em 1642,a tomada que fizera do lugarejo,avantajadamente engrandecera o insignificante sucesso,dizendo haver tomado "la grand ciudad de Pitaranha"...".

RAUL PROENÇA
Guia de Portugal 2º Volume p.414
Bbiblioteca Nacional de Lisboa
1927

PELO SONHO É QUE VAMOS

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

-Partimos. Vamos. Somos.

SEBASTIÃO DA GAMA

Pelo Sonho É Que Vamos 4ªEdição
Edições Ática
1971