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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

SEM UM PATACO

Este António José de Almeida,com quem lido há meses,é uma força generosa e simpática...Há outra coisa que o honra:acredita,começa sempre por acreditar em toda a gente. Uma grande generosidade,um grande arcabouço e uma voz poderosa e magnética...Ainda hoje lhe ouvi dizer que não tinha dinheiro para ir de carro para casa.
Em S.Tomé ganhou uma pequena fortuna:mãos abertas,deu-a,levaram-lha:ficou sem um pataco. -Ontem passou por mim um figurão que me disse,de grande charuto na boca,e acenando-me com dois dedos:- Adeus doutor...-e que tanto dinheiro me levou! E eu não posso fazer um fato novo....Deu tudo à república. Tem-lhe sacrificado a vida e os interesses.

RAUL BRANDÃO
Memórias(Tomo II) Vol.1 p.138-9
Relógio D'Água Editores,Março de 1999

segunda-feira, 27 de julho de 2015

AS JARRAS DA ÍNDIA

"O que custa a largar na vida não é a esplêndida natureza,as grandes ideias,a luta ou as paixões - é o que fazemos todos os dias,é o hábito. Um médico meu conhecido do Porto,o dr.Frias,acabou com estas palavras: - E os meus doentes? que vai ser dos meus doentes? - Um pobre chefe de via e obras do caminho de ferro que eu conheci em Guimarães,só dizia: - A linha! tenham cautela com a linha! - E a mim,uma das coisas que me vai custar a deixar são os meus papéis. A vida leva-nos e aturde-nos. Lutamos. Debatemo-nos. Mas quando chegamos ao fim estamos todos docemente maníacos. O cúmulo é o caso acontecido com o Alfredo Guimarães,cuja vida se passou na constante preocupação do bricabraque e que na agonia recomendava ainda:- Olhem lá se esses homens quando descerem com o meu caixão vão partir as jarras da Índia que estão no patamar da escada."

RAUL BRANDÃO