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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

SEM UM PATACO

Este António José de Almeida,com quem lido há meses,é uma força generosa e simpática...Há outra coisa que o honra:acredita,começa sempre por acreditar em toda a gente. Uma grande generosidade,um grande arcabouço e uma voz poderosa e magnética...Ainda hoje lhe ouvi dizer que não tinha dinheiro para ir de carro para casa.
Em S.Tomé ganhou uma pequena fortuna:mãos abertas,deu-a,levaram-lha:ficou sem um pataco. -Ontem passou por mim um figurão que me disse,de grande charuto na boca,e acenando-me com dois dedos:- Adeus doutor...-e que tanto dinheiro me levou! E eu não posso fazer um fato novo....Deu tudo à república. Tem-lhe sacrificado a vida e os interesses.

RAUL BRANDÃO
Memórias(Tomo II) Vol.1 p.138-9
Relógio D'Água Editores,Março de 1999

FULVOS E BONITOS

"....Na sala de espera na terceira classe entre bagagens e cobertores de lã,dormem,aos montes,rabuzanos que vão trabalhar para o Alentejo,os varapaus de castanho atravessados,os tamancos ao lado,os pés descalços e um cheiro a lobo que se evola das suas saragoças montanhesas. Nostalgicamente,alguns tasquinham um pão de milho horrível,com sardinhas assadas entre as pedras.
E os mais novos,quinze anos,dezasseis,dezoito anos,todos alegres daquela primeira migração às sementeiras de lá baixo,esses não param,examinando tudo pelos cantos,espantados,deslumbrados,fulvos e bonitos como bezerrinhos de mama;e ei-los estacam diante dos relógios,dos aparelhos do telégrafo,a sala do restaurante cheia de flores,os chalés de hospedagem e os pequenos jardins dos empregados da estação... Dois ou três arranham nas bandurras fados chorosos,melodias locais duma tristeza penetrante,em cujos balanços,gemidos,estribilhos,se acorda o murmúrio dolente das azenhas,vozes da serra,risotas da romagem,balidos do polvilhal que entra no ovil,todas as indefinidas virgindades da Beira,núcleo de força,e ainda agora a mais impoluta ara da família portuguesa...."

De O PAÍS DAS UVAS
O FILHO
FIALHO DE ALMEIDA
CÍRCULO DE LEITORES
1981

segunda-feira, 27 de julho de 2015

AS JARRAS DA ÍNDIA

"O que custa a largar na vida não é a esplêndida natureza,as grandes ideias,a luta ou as paixões - é o que fazemos todos os dias,é o hábito. Um médico meu conhecido do Porto,o dr.Frias,acabou com estas palavras: - E os meus doentes? que vai ser dos meus doentes? - Um pobre chefe de via e obras do caminho de ferro que eu conheci em Guimarães,só dizia: - A linha! tenham cautela com a linha! - E a mim,uma das coisas que me vai custar a deixar são os meus papéis. A vida leva-nos e aturde-nos. Lutamos. Debatemo-nos. Mas quando chegamos ao fim estamos todos docemente maníacos. O cúmulo é o caso acontecido com o Alfredo Guimarães,cuja vida se passou na constante preocupação do bricabraque e que na agonia recomendava ainda:- Olhem lá se esses homens quando descerem com o meu caixão vão partir as jarras da Índia que estão no patamar da escada."

RAUL BRANDÃO

sábado, 13 de julho de 2013

GONÇALO MENDES

"...
-Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês,sabe o Snr. Padre Soeiro quem elle me lembra?
-Quem?
-Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquelle todo do Gonçalo,a franqueza,a bondade,a imensa bondade,que notou o Snr. Padre Soeiro... Os fogachos e enthusiasmos,que acabam em fumo,e juntamente muita persistência,muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade,o desleixo,a constante trapalhada nos negocios,e sentimentos de muita honra,uns escrupulos,quase pueris,não é verdade?... A viveza,a facilidade em comprehender,em apanhar... A esperança constante n'algum milagre d'Ourique,que sanará todas as difficuldades... A vaidade,o gosto de se arrebicar,de luzir,e uma simplicidade tão grande,que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia,apsar de tão palrador,tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo,que o acobarda,o encolhe,até que um dia se decide,e apparece um heroe,que tudo arrasa...Até aquella antiguidade de raça,aqui pegada à sua velha Torre,ha mil annos... Assim todo completo,com o bem,com o mal,sabem vocês quem elle me lembra?
-Quem?...
-Potugal.
...".

Um excerto de A Illustre Casa de Ramires

EÇA DE QUEIROZ

Décima Primeira Edição

1941

LIVRARIA LELLO & IRMÃO

THE MISTERY OF THE SINTRA ROAD - EÇA DE QUEIRÓS;RAMALHO ORTIGÃO

EÇA DE QUEIRÓS;RAMALHO ORTIGÃO - PORTUGUESE WRITERS