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terça-feira, 1 de agosto de 2017

MESMO BARCO

O que,às vezes,se lia,estando escrito,ou se ouvia,de alguém dizendo de sua justiça,era de ficar três vezes espantado. Como era possível? Não eram as letras e as vozes de gente muito capaz? Pois claro que eram. Mas porque é que escreviam ou falavam assim? Porquê? Então não era o mais indicado estarem ali a perder o seu riquinho tempo,que não mais voltava,a ensinarem coisas úteis,coisas para fazer progredir,que o atraso era ainda muito grande,que ainda se não via a luz ao fundo do túnel? Com uma escuridão tão grande,com uma relatividade,e fragilidade de vidas,vidas fugazes,vidas quebráveis,de assustar,estarem para ali com aqueles modos de entristecer a mãezinha,que tantos cuidados tivera para eles crescerem,e virem a ser alguém,
para se ajudarem a si e os outros,que todos eram gente,gente metida no mesmo barco,barco que não sa sabia para onde ia,barco em forma de bola,que girava há um ror de tempo,sem ter parado ainda,não se sabendo pará-lo,nem movê-lo,nem nada.
Só sabiam implicar? Já ia sendo teima a mais. Quem é que iria dizer chegava,já bastava tanta implicação,tanto ferir?

quinta-feira, 8 de junho de 2017

FARPELA LAVADA

Não se esforçam,não trabalham no duro,são preguiçosos,tratam as coisas pela rama,não procuram esclarecer-se na medida das suas capacidades.
Portanto,só há uma coisa a fazer,lá pensam eles. E essa coisa é desfazer,desfazer de qualquer maneira,a torto e a direito,de maneira a ficar tudo em cacos,sem olhar a meios,à bruta mesmo.
O que é preciso é retirar do caminho todos os que lhes estão a impedir a caminhada triunfal,porque se não for assim,triunfal,a coisa não tem graça nenhuma. O que é preciso,mais precisamente,é reduzir os outros a pó,que uma brisa leve lá para muito longe. O que é preciso é dizer cobras e lagartos dos outros,se doutras coisas não se lembrarem,para ninguém os poder olhar a direito.
Então,só assim é que se sentem felizes,lá à maneira deles,porque chamar àquilo felicidade é de não se estar bom da cabeça. Coitados deles,uns tristes,que não podem ver uma farpela lavada nos corpinhos dos outros,todos os outros,sem um escapar,um só que seja,para só eles terem uma farpela lavada.

domingo, 28 de maio de 2017

ENVOLVER NUM SÓ

O senhor não devia estar bem. Arregalava muito os olhos e respirava fundo,como fazendo um grande esforço,quando queria intervir. Mas isso foi só nos primeiros dias. A mudança de ares ajudara-o a recompor-se. Quase não parecia o mesmo. Ficou mais calmo e deixou os exageros de opinião do início. Pelo que revelara,a sua vida não fora nada tranquila,caracterizando-a a instabilidade dos lugares por onde tinha passado,mas sempre em cima da onda. O que o teria levado a este saltitar? Talvez um procedimento análogo ao que exibira nos primeiros dias,de alguma,para não dizer muita, intolerância.Tê-lo-ia salvado as suas muitas capacidades. Seria de grande competência e isso permitir-lhe-ia a sua permanência por algum tempo. Passado este,as vontades das duas partes concordariam em que uma mudança de ares lhe faria bem,como estava,alás,acontecendo ali. Interessava-se muito pelas riquezas dos locais que frequentava. Passava-as a pente fino,não fosse escapar algum pormenor importante. A sua natureza nervosa não suportava a monotonia,a rotina. Isso explicaria o seu circuito profissional e estaria de acordo,também,com as suas longas viagens,tal como a última,da ordem de milhares de quilómetros. Viria daqui uma das razões,porventura,a de mais peso,para aqueles olhares muito alargados,dos muitos horizontes vistos e que quereria envolver num só.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

TAL COMO NA VIDA

A forragem estava boa para corte. Vieram três homens de uma aldeia próxima. A tarde ia a meio e o calor apertara. Protegida a nuca com lenços,os jornaleiros ceifavam o trevo,bem desenvolvido e basto.Algumas vacas já estariam com água na boca,antegozando o festim. Tinham de ter paciência,que, antes disso, ia-se assistir a um espetáculo digno de registo.É que um dos ceifeiros encontrou um ninho com vários ovos. Mas que coisa boa,manifestaram-se eles exuberantemente. Vêm mesmo a jeito,pois já estávamos a precisar. Sem cerimónias,após justa divisão,trincaram-nos e enguliram-nos,inteirinhos.Mas estavam com sorte,pois,pouco tempo volvido,apareceu outro ninho. Desta vez,rejeitaram a casca,depois de os meterem na boca.E a sorte continuou. Já quase saciados,com vagares,partiram os ovos. Mas a sorte não findara. Esse ninho foi poupado.Afinal,como na vida. Uns são sacrificados,outros conseguem escapar-se. Vá-se lá saber porquê.E as pobres mães? Tinham sido iludidas. A elevada densidade do trevo não lhes salvara os filhotes a haver.

quarta-feira, 2 de março de 2016

PRIVILÉGIOS

Era uma corrida universal ao bem-estar,não escapando um cantinho sequer. Mais do que isso,podia dizer-se,era uma corrida universal aos privilégios.
Não adiantava estar a esmiuçar esses privilégios,e não,pela razão comezinha de que todos privilégios eram. O que adiantava era sublinhar que esses privilégios só podiam calhar a alguns,uma meia dúzia,se tanto,para esses alguns ficarem muito,muito,satisfeitos. Se tal não acontecesse, a vida deixaria de ter qualquer interesse.
Estava-se mesmo a ver que assim não se iria lá. Ou eram privilégios para todos,sem um escapar,ou,então,não haveria um privilégio para um sequer.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

PELE TIRADA

Era um homem alto,magro,de olhar confiado. Fora um dos primeiros a arrancar para a França e,já regressado,estava agora ali naquele emprego de jardineiro. Com o dinheiro que amealhara,pusera casa que se visse e ainda comprara uns pedaços de terra,onde gastava as horas livres. Murara-os com videiras e enchia-os de milho. Engordava,ainda,dois ou três vitelos barrosãos. Naquela altura,andava muito desanimado,pois concluíra que se esforçava em vão. Uma pessoa trabalha,entrega bom dinheiro pela semente,pelo aluguer do trator,pelos animais,pela ração,pelo adubo,e,depois,é o que se vê,um quase nada. Os intermediários queriam levar tudo. Esperava,a ver se chegavam a um melhor preço,mas estavam todos combinados. O milho do ano anterior ainda estava por vender. Quanto ao gado,dizia-lhes que era carne de primeira,o que era verdade. Pois sabiam o que é que lhes ouvia? Depois da pele tirada são todas iguais. Assim,estava decidido a ficar só com o vinhito. Trabalhassem eles.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

MAIS UM INCÊNDIO

Já passava do meio-dia,mas a porta das sopinhas ainda não abrira,pelo que os convivas esperavam no jardim em frente,onde havia meia dúzia de bancos.

Ele ainda não chegara,o que era para muito admirar,pois vinha cedo,talvez para ser dos primeiros,que o seguro morreu de velho.

Seria um fogo de há uns dois ou três dias a razão de tal ausência? É que ele confessara estar pernoitando numa casa abandonada. E uma casa assim,ali perto,fora a vítima de mais um incêndio,desta vez,consumindo-lhe o telhado.

O que teria acontecido?