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domingo, 3 de setembro de 2017
A COISA VAI MAL
Quando os meios se ocupam,dias a fio,com o noticiar de "escândalos" ou coisa parecida,usando as primeiras páginas,caixa alta,grandes parangonas,sublinhado,e sabe-se lá mais o quê,parece ser sinal claro de que a coisa vai mal,mesmo muito mal,a precisar,urgentemente, de médico á altura,ou à largura,como se queira. Parece ser sinal evidente de que os meios vão mal,mesmo muito mal,ou então,em alternativa,ou conjuntamente,a procura vai mal,mesmo muito mal.
PADRÃO DE EFICÁCIA
O empedrado do passeio debaixo de certa varanda de primeiro andar estava negro,de um negro sujo. Tinha sido isso obra de uma muito rara e teimosa rega canina,quer dizer,
uma espécie de água mole,que não furou,mas impregnou. Tal prodígio merecia continuidade,pelo que lá permanece,como um padrão de eficácia.
sábado, 2 de setembro de 2017
NEM NADA
A uma esquina, conversam duas senhoras. Não calcula,diz uma delas,a minha filha comprou agora um andar que só visto. Não lhe falta nada,aquilo é mesmo um palácio. Foi um bocado carote,mas ela merece. Não há filha como aquela,pode crer,muito trabalhadora,muito minha amiga.
A outra,coitada,ouvia,um tanto triste. Se calhar,nem filha tinha,nem filha,nem nada.
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
PALHAÇO POBRE
Quem o ouvisse,parecia estar ele muito alegre,muito satisfeito com a sua vida. Seria,então,uma alegria de palhaço pobre. De resto,tristezas não pagam dívidas.
NÚMEROS MÉDIOS
É um facto o acelerado desenvolvimento dos últimos tempos,que se acentuou quase a cada momento. Segundo alguns,deve-se isso muito menos a individuais cérebros do que a um colectivo cérebro,produto de uma quebra de fronteiras,de uma larga e fácil troca de ideias,de uma forma de hibridização,quase de sexualismo. E avançam,para o colocarem bem em evidência,com números,números médios,de tudo e de mais alguma coisa,de mortalidade,de ganhos,de nível de vida,de bem estar,números médios,que escondem outros números de arripiar,números que se perpetuam,que são uma mancha muito triste no lindo tapete dos números médios.
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
OUTRO MUNDO
Na NATUREZA, nada se perde,nada se cria,TUDO se transforma. É a FORMA,em constante mudança,a REALIDADE. Todo o mundo é composto de mudança.É assim,não há nada fazer. Porque assim é? É perguntar a QUEM o fez,faz,O do FIAT.
E quem tal contrarie está remando contra a maré,acabando,mais tarde,ou mais cedo,por se esgotar,numa luta sem glória. E quem tal contrarie parece estar apostado em não sobreviver,preferindo a morte a tal sorte.
Em vez de contribuir para a mudança,alterando-a naquilo que pudesse,deixa-se ficar à margem dela,excluindo-se,teimosamente,como se a outro mundo pertencesse.
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
APARATO BELICOSO
É uso dizer quem vai à luta dá e leva. Acontece que há uns que só estão dispostos a dar,exibindo sempre um aparato belicoso.
AO FIM
Quando se está disposto a fazer ultrapassagens de qualquer maneira,parece ter-se pressa de chegar ao fim.
UM MODO DE ESTAR
Poupar. Ajudar. Não estar sempre a pensar no mesmo. Observar. Trabalhar. Compadecer-se.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
SEM AVISO PRÉVIO
Era uma vasta área,quase plana. Quer dizer,a água que lá caísse,só podia sair dali,a
bem dizer,na vertical. E assim,quando chovia demais,as plantas que por lá faziam pela vida,uma boa parte das vezes,searas de trigo,viam-se e desejavam-se para respirar,mostrando cara muito amarelinha.Em terreno lavrado,todo o cuidado era pouco,
pois,sem aviso prévio,havia o risco de se ir por ali abaixo.
CULPADO
Para o que lhe havia de dar. Um casal de cegos aproximava-se,e a voz dele ouvia-se. Uma esmolinha por favor,uma esmolinha por favor.
Primeiro,pensou em mudar de passeio,depois,ao passar por eles,quase nem os olhou. Teria sido para se furtar ao desembolso? Talvez um pouco,ainda que pouco se esvaziasse. Então,do que mais seria?
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
O MANDO
Até ali, tinha sido só um a mandar,passando o mando de pais para filhos. Depois,passara o mando para quem o povo escolhesse. Para isso,tinha o povo de sair de casa,tinha de se incomodar.
Ora o povo,depois de tanto tempo a ser mandado,foi-se a pouco e pouco cansando de sair de casa. E a certa altura,parecia ter-se voltado aos tempos antigos. Eles que lá se entendessem,que era disso,do mando, é que eles gostavam.
UM INVENTÁRIO
O homem das sete léguas. A mulher dos esconsos de portas de prédios. A velhota entre dois carros,em berma de rua movimentada,aliviando-se. O dos abraços a senhoras,nas ruas. A passageira,de pernas enganchadas,de uma traquitana já muito gasta. O que tinha como vizinhos gatos sem eira nem beira. Os de à volta cá te espero. O tribuno orando aos pombos. O rapaz da trança até à cintura,e da casa abandonada,com os seus dois grandes cães de estimação. Os de vinganças. O que visitava meticulosamente contentores de lixo,com uma vassoura na mão,não fosse sujar a rua. O eterno batedor em portas certas,que a vida tem de ser suportada. O homem das dez léguas,e muitas mais,que, um dia,ainda iria ao fim do mundo. Os velhinhos imitando remadores de galés,das fitas,antigas,ou modernas. Os videirinhos. O andarilho,de botas de gigante,que tratava todos por doutores,burro é que ele não era. O casal que inventara um novo calorífero,o seu amigo cão. A senhora que falava pelos cotovelos com quem passava. A velhota que parecia voar. O janota colector de beatas. O parado em qualquer sítio,à espera de alguém,que já tinha partido para sempre. O do chapéu às três pancados,especado,suspenso de moças que ele perto via. Os telemóveis sempre engatilhados. Os cigarros em bocas de donzelas e de senhoras. Os condutores de automóveis,ao telefone. O filho, já homem,na peugada da mãe velhinha. Os dos amigos são para as ocasiões. Os que dizem coisas pela primeira vez. Os do só eu é que sei,é que vi,mais ninguém. Os do dantes é que era bom. Os do ai se eu mandasse,ia tudo raso. Os das casas que estão para ali. Os espertos. Os da poeira para os olhos. Os troca-tintas. Os pobrezinhos. Os pobrezinhos que sonham,que querem ser ricos,também têm direito,porque não?
Os ricos,que não querem ser pobrezinhos,também têm direito,porque não? ...
domingo, 27 de agosto de 2017
PREOCUPAÇÕES
Como é sabido,o óxido nitroso derivado da redução do ião nitrato,qualquer que seja a sua origem, tem causado preocupações. Na sequência do processo redutivo,o óxido nitroso não é,porém, o produto final,mas sim o amoníaco,antecedido do azoto molecular. Quer dizer,que na desnitrificação,incluída no ciclo do azoto,o óxido nitroso pode vir a dar lugar,pelo menos,a uma forma inerte.
COOPERAÇÃO
O que ele mostrava ser amigo dos pobrezinhos. É que,por tudo,e por nada,não se cansava de os lembrar a outros.
Constava,porém,não ser ele um benemérito por aí além,ainda que o pudese ser. Estaria a contar com larga cooperação,para a qual muito trabalhava.
IMANENTES
O moço era um simples,um confiado,de boa fé. Mas não sabia que trazia consigo outros moços,de outras caras. Não sabia nada disto,e ia partir para a vida. Não sabia que iria ser assaltado por lobos,postados a cada esquina. Não sabia que devia saber defender-se deles e ser raposa e até lobo,também,recorrendo aos companheiros que,com ele,vinham. Não sabia que a outros moços, iguaizinhos a ele,já lhes tinha acontecido o mesmo,nos assaltos,e nas defesas. Que alguns dos lobos,teriam sido já raposas,e até confiados,como ele era ainda. Não sabia,assim,que devia ser tolerante,compreensivo,em suma,estar preparado para tudo. Porque,em boa verdade,ele era igualzinho a todos os outros moços e não moços. Teria de ser confiado,raposa,lobo,consoante o momento,melhor dito,a circunstância. A circunstância. O que ela encerra,um monte de surpresas. Em última a análise,a vida a isso obrigava. Era o princípio da conservação do indivíduo,a montante do da espécie,princípios imanentes,talvez mais aquele do que este.
sábado, 26 de agosto de 2017
A SORTE DOS BURROS
A sorte dos burros. Estavam em vias de desaparecer,que os tempos já não estavam para burrices,e,de repente,veio-se a descobrir que o leite que os alimentava era assim como o melhor leite do mundo. Grandes burros eram eles,pois,maiores do que burros não eram.
O que eram,pois,as coisas. E entraram numa era que nenhum se lembrava de ter vivido,mesmo naqueles velhos tempos em que os burrinhos eram considerados quase da família. E foi um multiplicar de burros por tudo quanto era sítio,mesmo sítios onde nunca tinham entrado,por serem o que eram,por serem burros,que eles não podiam deixar de ser o que eram,nem eles,nem outros quaisquer,por mais burrices deixassem de fazer. O que eram,pois,as coisas. De repente,deixaram de ser,pode dizer-se,burros,para ser outra coisa,ainda que burros continuassem a ser,em boa verdade,pois não se podia deixar de ser o que se era.
IR DESCANSAR
Era aquela uma terra de ninguém,uma espécie de baldio,quer dizer,qualquer um podia lá entrar,colher dela o que entendesse,não exagerando,claro,mas não demorar-se. Tratava-se de um costume muito antigo,sempre respeitado.
Aconteceu,um dia,vir instalar-se nela alguém que não estava para esses ajustes. Achava que aquela terra era mais dele,pelo que podia por lá permanecer. Os outros,só a correr. Mas isto de a correr já eles todos sabiam e faziam,escusava de o estar a lembrar. Quanto o ser mais dele,queriam ouvir as razões.
Ele deu-as,pensando ter convencimento geral. Quase acertou. É que um não esteve para as aceitar e passou também a frequentá-la mais vezes.
Era para ter havido guerra. Não houve,porque,de maneira inesperada,o opositor,já um tanto velho,decidiu ir descansar.
RECOMPENSA
Quem é bem dotado,ou está disso convencido,já tem aí grande parte da recompensa a que se julga com direito. É como ter nascido em berço de oiro,pelo que não precisaria de mais oiro ter.
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
TER PENA DELES
Eram malabaristas da palavra,tendo armazéns delas. Procuravam enredar,confundir,deitando poeira para os olhos,quer dizer,debitando caudais delas. Mestres no sofisma,deleitavam-se com as suas conclusões enganosas. Assim é que se sentiam bem.
Embalados pelas suas aparentes vitórias,que só o eram para alguns,pavoneavam-se como triunfadores,chegando a convencer-se de que tinham saído vencedores.
A paciência que era preciso ter com eles,sabendo-se que não os demoviam,pois eram assim,
tinham nascido assim,gostavam de ser assim,morreriam assim,pelo que não havia nada a fazer,a não ser perdoar-lhes,e ter pena deles,que eles não sabiam o mal que a eles próprios infligiam
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