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segunda-feira, 7 de março de 2016

QUE ALÍVIO

Não se pode imaginar como o velho ficou de contente. Ele que já estava a ver a vida a andar muito lá para trás,para os tempos em que ele era menino. As desgraças que ele via lá do seu postigo,só visto,contado não tinha graça mesmo nenhuma. Uns horrores era o que aquilo era.Velhinhos a pedirem uma esmolinha pelas alminhas daqueles que lá tinham,nos Cèus. Aquelas bichas intermináveis à porta de casas ricas,em dias certos,e de quartéis todos os dias.
E outras desgraças mais,em feiras,em romarias,nos cruzamentos,às esquinas,por toda a parte. Chagas ali,como numa montra,a solicitarem uma ajudazinha. E as moscas ali à roda. E os ranchos,que lá vinham das serras,para as vindimas,para as ceifas,para a azeitona,e que eram aboletados,como gado,em casas de malta? Uns horrores.
Mas o que ele estava a ler, naquela altura,em que uma alegria enorme o tomara,não era para menos. E não haverá ninguém que possa vir dizer que o velho não estava cheio de razão. É que o que ele estava a ler era--"Ao contrário da ideia corrente de que o Estado-Providência é coisa do passado,ele irá afirmar-se mais na América". Que alívio.

SEM DESTINO

Há, pelo menos,duas maneiras de ser. Uma delas, é o ser por ser,pela comezinha razão de não se poder ser outra coisa,pois não pode haver,pelo menos é o que se diz,seres ao quadrado,ou mais ainda,assim como lá com os números. A outra,é o ser mais do que o outro,ali o vizinho do lado direito,por estar mais próximo,por se ver mais vezes. O mesmo parece passar-se com o ter,talvez por uma mera questão de imitação,quem sabe,que a originalidade custa mais. Uma delas,é o ter por ter,assim como um desporto amador,sem estar a pensar em competições. A outra,é coisa muito séria,tão séria que parece ser obra do diabo mais velho,daquele com muita experiência,muito batido. É o ter para ter mais do que o outro,que pode ser,à partida,o vizinho do lado,mas,depois,é um parar sem destino. É o ter sempre mais,e mais,e mais...

MANTA DE RETALHOS

Olhe que esse terreno não lhe vai servir para o ensaio,e quem o escolheu não sabe o que anda a fazer. É que um rebanho de ovelhas andou por ele tratando da sua vida. Havia,de facto,alguns vestígios sólidos da sua passagem. Dos líquidos,a análise logo os acusou.
As ovelhas tinham privilegiado certos sítios,pelo que aquilo era uma manta de retalhos. Onde se tinham mais demorado,os teores de potássio eram muito mais altos.
Serviu este caso para se ter mais cuidados na seleção de locais para ensaios,para os quais se exige a maior uniformidade.

domingo, 6 de março de 2016

PELA PRIMEIRA VEZ

A tentação de ser diferente,de ser isto e mais aquilo,está bem generalizada. Basta reparar nas vezes em que se ouve o "ninguém viu senão eu" ou outras expressões equivalentes. Só eles ou elas,e mais ninguém.
É claro que tal presunção é grosso atrevimento. Mas eles ou elas sabem-no muito bem,não são assim tão destituídos. Contam com a ignorância de muitos e a tolerância de outros tantos. Convencidos de que convencem,não têm emenda. Necessitam de assim atuar,quase como de pão para a boca,para se sentirem gente. Sem isto,não teriam o dia ganho.
Deixá-los pois,no seu convencimento aparente. Daqui talvez não venha grande mal ao mundo,que passaria bem sem eles ou elas. Felizmente que outros,porventura,meia dúzia deles e delas, assim se pode dizer,estão convencidos de muito pouco e que persistem no seu trabalho de procura. Estes,sim,é que, um dia,poderão vir a proclamar que viram pela primeira vez.

O PAU E O PÃO

O senhor Joaquim era um homem bom,muito humilde, que se contentava com muito pouco. Nascera já assim,fora sempre assim,dizia ele que não tinha culpa de ser assim. Tinha,porém,lá as suas teimas. Quando embirrava lá para um lado,ninguém o conseguia demover. Eram as suas fixações,ou como lhe quisessem chamar,que ele não se importava,estava por quase tudo.
E então que fixações eram essas,ou lá o que aquilo era? Eram duas,a bem dizer. Uma delas, parecia indicar que ele acreditava em Deus. Ora vejam lá,se não parecia mesmo isso. Dava,a cada passo,sobretudo quando ninguém o ouvia,muitas graças ao Criador por ter nascido pobre. Ele não dizia porquê,mas ele lá teria as suas razões. De resto,nunca ninguém se lembrou de lhe perguntar,o que foi uma pena,porque,sabe-se lá,podia ter brotado dali a mezinha para tanto mal. A outra,era assim como que uma adivinha. Ora vejam lá se não era. Que o que eles,nunca dizia quem eram eles,precisavam era de um pau na mão,e na outra o pão.

sábado, 5 de março de 2016

A PRIMA RITA

Ninguém é profeta na sua terra. Não há quem valha para o seu criado de quarto. Santos da casa não fazem milagres. A catástrofe e a lei das emoções. E foi toda a minha gente visitar a prima Rita,que acabara de esfolar um braço. Como é que as coisas podem correr bem numa freguesia destas?

CIDADE E CAMPO

O galo da cidade não imaginava o bem que ele fazia, sempre que lhe dava para cantar. Parecia,
por breves momentos,que se tinha,ali,o campo.

GALO DA CIDADE

Não falhava o galo. Todas as manhãs, lá dava ele acordo de si,como só os galos sabem fazer. Fazia isso vezes sem conta.
Mas,talvez por ser galo de cidade,acordava tarde,já o meio-dia ia chegando.

PREGUIÇA

A professora de francês queria que os seus alunos trabalhassem,estudassem,não mandriassem. Então,contou-lhes o que é que certo galo cantava e tornava a cantar,teimosamente. C'est moi le coq. Je chante avant le jour. Je fais la guerre à la paresse. C'est moi le coq...

sexta-feira, 4 de março de 2016

VARINAS

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas,à cabeça,embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

De O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL,
CESÁRIO VERDE

ER A VIDA

Coitada da velhota,muito carregada ia ela. É que lá em casa não bebiam água da torneira,e não paravam de comer. E era ela que tinha de ir às compras,que os outros tinham mais em que se entreter. Mas era a vida,o que se havia de fazer?

NADA A FAZER

Diante da precaridade da vida,a cada momento provada,eram inexplicáveis a vaidade,a presunção,a soberba,a pretensão,o convencimento,a importância,o olhar de cima. Mas não havia nada a fazer,que,acontecesse o que acontecesse,toda esta família,e demais parentes,continuariam a desfilar. Eram assim.

NEM SÓ DE PÃO

Era caso para muito pensar. Uma vida inteira sem produzir nada que se visse,coisa de comer,ou de beber,ou de usar. Viviam de palavras,ou faladas,ou escritas.
Uma saída,pelo menos,havia, para tranquilizar. E era que nem só de pão vive o homem.

quinta-feira, 3 de março de 2016

LINDO PRÉDIO

Aqueles passeios todos esburacados não podiam ficar assim,a fazer má companhia ao bonito prédio que estava a levar os últimos retoques,sobretudo, nos interiores ajardinados. Ficavam mal,afastariam alguns intereressados em lá viver,ainda que os não utilizassem,mas,acima de tudo,os que o procurariam.
E assim, ali estavam alguns calceteiros,sentados,ajoelhados,a pôr pedrinhas como devia ser,para os passeios se parecerem com aquele lindo prédio,de mármores,de vidros,de largas entradas para amplo e ajardinado recinto, onde lojas se iriam abrir.

TUDO INCLUÍDO

Um exagero,uma exorbitância,podes crer. Duzentos euros,por um par de lentes. A vida está que não se pode.
Ah,mas isso é de graça,quinhentos euros por uma semana em Nova Iorque,tudo incluído. É de não pensar duas vezes.

UM CASO DE CORREÇÃO DA ACIDEZ DO SOLO COM CALDA BORDALESA

Num estudo sobre solos derivados de granitos de várias regiões,houve ocasião para colher amostras de um solo em que a cultura era uma vinha tratada com calda bordalesa contra o míldio. Consideraram-se duas profundidades,0-20 e 20-40 cm. Os dados analíticos do pH,do Ca de troca(mg/100g) e do Mg de troca(mg/100g) são os seguintes:
camada 0-20cm - pH(6,3);Ca(73,1);Mg(5,2)
camada 20-40cm- pH(5,5);Ca(57,6);Mg(5,3)
O valor 5,5,ou próximo,era o normal da região. Como explicar assim o valor 6,3 da camada o-20? Da história dos amanhos culturais não constava qualquer calagem do tipo clássico. O causador parecia ser,só podia ser,a calda bordalesa, por via do seu óxido de cálcio.Tendo em conta o número de aplicações,ter-se-ia feito,por ano,uma calagem equivalente a 300 Kg/ha de CaCo3,que,com a ajuda da fraca tamponização do solo,fizera subir o pH e o Ca de troca apreciavelmente,não bulindo no Mg de troca.

DE QUEM É A CULPA?

Alguém tinha de fazer certo trabalho. Mas as ricas férias,é que ele não podia dispensar. Andava arrasado,talvez de não fazer nada. E do que é que ele se lembrou? Arranjar um que o substituisse. E foi-lhe fácil. Havia ali um moço que só fora ensinado a dizer sim. Um não era grave,podia significar ter de ir dar uma volta.

O trabalho foi feito,mas como era de esperar,muito mal feito. Teria sido melhor,até,não o ter feito. Aquilo merecia castigo. Mas coitado do rapaz. Metia dó. De resto,não era ele que o devia suportar. Ero o outro, o que andava por lá,recuperando da fadiga de não fazer nada. E esse,coitado também,merecia o mesmo perdão. Não eram eles os culpados. De quem seria a culpa? Sabe-se lá. A água já corre há tanto tempo. Sabe-se lá por onde ela tem passado. E sabe-se lá que pés pisaram esses muitos sítios. De quem é a culpa?

UM SUFOCO

O tio Joaquim é que parecia ter razão,o tio Joaquim que morava ali no rés-de-chão frente,e que,agora,já lá não mora,não se sabendo porquê,talvez tivesse ido desta para melhor,que ele,coitado,nos últimos tempos, já não andava lá muito bem.
Pois o tio Joaquim dizia a quem o queria ouvir,embora quase ninguém lhe ligasse,o que parecia não o apoquentar,dizia que o mundo não tem conserto,que é um mundo do faz de conta,das esmolinhas,das importâncias,das grandezas,do vira o disco e toca o mesmo,dos projetos- piloto,das metas sempre adiadas,das decisões para o caixote do lixo,das crises eternas,do salve-se quem puder.
Com tantas inteligências,continuava ele a dizer,com tantas sumidades,com tantos mestres,com tantos sábios,com tantos Nobel,e não haver um que conseguisse pôr o mundo nos eixos,que o endireitasse,que acabasse com a fome,com as barracas,com a miséria,com as desconfianças,as ambições,as vaidades,as invejas,com toda essa tralha de coisas inúteis,que já há muito se devia ter sumido nas profundezas para sempre,à semelhança de muito matéria orgânica,para que houvesse um ar respirável,que,como estava,era um sufoco.

UNS POBRETANAS

Coitado do velhote. Ele que andava,naquela altura,muito mais tranquilo,tão tranquilo,que até parecia adivinhar qualquer coisa muito estranha que com ele se estava passando. Estranho ou não,o certo é que ele nem parecia o mesmo de tempos passados,sempre ralado,sempre a lastimar-se,mas nunca revelando o que era. Aquilo era com ele,ninguém tinha nada com isso. Queriam saber,mas tirassem dali o sentido. E fazia um risozinho muito misterioso.
Qual coitado,qual carapuça. Afinal,a coisa estranha,de estranha nada tinha,nem mais,nem menos,uma fortuna inesperada,pois ele para ali não tinha metido nem prego, nem estopa. Vira-se com ela,assim como uma de magia. Mas mágica é que ela não era,mas sim dinheirinho verdadeiro.
Mas o que lhe havia de suceder,pois passou mesmo,de novo,a coitado. É que não havia cão,nem gato,que esquecesse uma coisa daquelas. Então não querem lá ver o diabo do velhote? Parecia que não tinha onde cair morto,afinal está ali rico, que até pode fazer pouco da gente,para aqui uns pobretanas.
Coitado do velhote. Assim com toda a gente a implicar com ele não tinha graça nenhuma. Paciência,pedia ele a si mesmo,paciência. O melhor é dar o dinheiro aos pobrezinhos .Não lhes resolvo os seus muitos problemas pois eles são muitos,mas, ao menos, livro-me das patadas que não se cansam de me dar,que até já nem tenho sítio do meu velho corpo sem uma nódoa negra.

quarta-feira, 2 de março de 2016

GENTE MUITO VIAJADA

Só ali,naquela terra,é que se via uma coisa daquelas,uma vergonha. E não se cansavam de o repetir.
Quer dizer,era gente muito viajada. Tinham andado por lá, demoradamente,convivendo muito. Podiam,assim,dizer de sua justiça,fazer comparações,opinar,classificar.