segunda-feira, 7 de setembro de 2015
MÚTUA SATISFAÇÃO
Fora grande a surpresa dos dois,pois já se não viam há uns bons tempos. Eram eles de muito diferentes idades. O mais novo andara mal,mesmo muito mal,talvez de ruim doença,e o mais velho,ora o mais velho,estaria já cá a mais.
Mas,afinal,ali continuavam os dois,o mais novo com ar remoçado,não parecendo o mesmo,e o mais velho,embora alquebrado,lá teimava. Para além da surpresa,pode dizer-se que houve mútua satisfação, por constatarem que andavam os dois ainda por cá.
Mas,afinal,ali continuavam os dois,o mais novo com ar remoçado,não parecendo o mesmo,e o mais velho,embora alquebrado,lá teimava. Para além da surpresa,pode dizer-se que houve mútua satisfação, por constatarem que andavam os dois ainda por cá.
UMA MÃO AMIGA
Aquele quadro não lhe sai da memória. De vez em quando,lá lhe surge,demorando-se. É um velho com ar modesto,de chapéu na cabeça,ligeiramente curvado e de mãos atrás das costas,especado diante de um prédio de muitos andares.
Em que estaria a pensar aquele velho? Via-se que estava admirado com a altura,com a beleza da construção. Nunca teria visto um assim. Teria vindo lá de uma atrasada terra. Que rico prédio,sim senhor,diria ele com os seus botões. Quem me dera que fosse meu,que era sinal de que a vida me tinha corrido de feição. Mas para aqui estou,depois de grandes e continuadas canseiras,quase de bolsos vazios.
Muito deve ter trabalhado o dono deste prédio. Mas eu também fiz o mesmo,nem umas férias gozei,e o resultado é o que se vê. E mais devem saber que eu nunca trapacei,fiz sempre jogo limpo,e ,sempre que pude ,dei uma ajuda a este e àquele. Deveria ter tido melhor sorte aquele velho.
Quantas vezes mais ele se terá detido em frente de outros prédios como aquele,admirando-os e refletindo? Passaria em revista os passos da sua longa e esforçada vida e procuraria descobrir onde errara ou onde faltara uma mão amiga que o amparasse,que o ajudasse,como ele fizera com alguns. E culparia o destino,o mau signo,mas consolar-se-ia,sabendo que nunca prejudicara quem quer que fosse. Disso teria a certeza,o mesmo não sucedendo,talvez,com tantos donos de tantos prédios de todos os tamanhos.
Em que estaria a pensar aquele velho? Via-se que estava admirado com a altura,com a beleza da construção. Nunca teria visto um assim. Teria vindo lá de uma atrasada terra. Que rico prédio,sim senhor,diria ele com os seus botões. Quem me dera que fosse meu,que era sinal de que a vida me tinha corrido de feição. Mas para aqui estou,depois de grandes e continuadas canseiras,quase de bolsos vazios.
Muito deve ter trabalhado o dono deste prédio. Mas eu também fiz o mesmo,nem umas férias gozei,e o resultado é o que se vê. E mais devem saber que eu nunca trapacei,fiz sempre jogo limpo,e ,sempre que pude ,dei uma ajuda a este e àquele. Deveria ter tido melhor sorte aquele velho.
Quantas vezes mais ele se terá detido em frente de outros prédios como aquele,admirando-os e refletindo? Passaria em revista os passos da sua longa e esforçada vida e procuraria descobrir onde errara ou onde faltara uma mão amiga que o amparasse,que o ajudasse,como ele fizera com alguns. E culparia o destino,o mau signo,mas consolar-se-ia,sabendo que nunca prejudicara quem quer que fosse. Disso teria a certeza,o mesmo não sucedendo,talvez,com tantos donos de tantos prédios de todos os tamanhos.
TUDO DE GRAÇA
O velho casarão,agora restaurado e reconvertido,como que novinho em folha,lá está,bem visível,num ligeiro alto,fazendo contínuos apelos para nele se entrar e demorar,que o que se encontra lá dentro não é para deitar fora. São livros,muitos livros,e também jornais e revistas,para todos os gostos,que ali se podem ler ou levar para casa,tudo de graça,coisa que não é costume. Acompanhando os novos tempos,também lá se perfilam computadores,dispostos a abirem as janelas,debruçadas para o mundo.
Por perto,passam carros e carretas,e passa gente,e ,a dois curtos passos,há espaços ajardinados,onde se amontoa gente,jogando às cartas e falando de achaques,de futebol,de magras pensões,e questionando por tudo e por nada. Isto,dias a fio,sem interrupções.
Pois os apelos como que caem em saco roto. Quase se podem contar pelos dedos os que se tentam,tirando,é claro,jovens em começo de vida,por dever de ofício.
É uma grande pena que muitos daqueles que estão da vida se despedindo não aproveitem aquela dádiva. Seriam capazes até de espaçarem o adeus final,ao darem conta de que, para lá do seu acanhado mundo,muitos outros há.
Por perto,passam carros e carretas,e passa gente,e ,a dois curtos passos,há espaços ajardinados,onde se amontoa gente,jogando às cartas e falando de achaques,de futebol,de magras pensões,e questionando por tudo e por nada. Isto,dias a fio,sem interrupções.
Pois os apelos como que caem em saco roto. Quase se podem contar pelos dedos os que se tentam,tirando,é claro,jovens em começo de vida,por dever de ofício.
É uma grande pena que muitos daqueles que estão da vida se despedindo não aproveitem aquela dádiva. Seriam capazes até de espaçarem o adeus final,ao darem conta de que, para lá do seu acanhado mundo,muitos outros há.
DE GRAÇA
Era um chefe que prezava a pontualidade na entrada para o serviço. Um peão tinha de estar no seu posto desde a hora zero,para acudir a qualquer eventualidade,como um bombeiro. Era para isso que se lhe pagava. Podia não ter nada para fazer,mas isso era o menos,não tinha qualquer importância.
Havia,claro,o livro de ponto. Os que pisassem o risco,quer dizer,quando não o encontrassem,que ele saía do seu lugar no tempo exato,já sabiam que não se livravam de uma falta injustificada. Não queria saber de desculpas. Mas ele ia mais além.
Postava-se na sua varanda,num primeiro andar de rua muito movimentada,mesmo em frente de uma praça de táxis. Ai daquele que se atrasasse. Ouvia das boas. Era espetáculo de graça para quem estivesse lá em baixo. Sabendo disso,não perdiam um.
O mesmo rigor não era aplicado à saída. Quem pagava era o pobre do contínuo,que quereria ter asas.
Havia,claro,o livro de ponto. Os que pisassem o risco,quer dizer,quando não o encontrassem,que ele saía do seu lugar no tempo exato,já sabiam que não se livravam de uma falta injustificada. Não queria saber de desculpas. Mas ele ia mais além.
Postava-se na sua varanda,num primeiro andar de rua muito movimentada,mesmo em frente de uma praça de táxis. Ai daquele que se atrasasse. Ouvia das boas. Era espetáculo de graça para quem estivesse lá em baixo. Sabendo disso,não perdiam um.
O mesmo rigor não era aplicado à saída. Quem pagava era o pobre do contínuo,que quereria ter asas.
domingo, 6 de setembro de 2015
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