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domingo, 9 de junho de 2013

ÍCARO

Minhas asas humanas de poeta!
Derreteu-as o sol da lucidez.
Cego, abria-as ao vento
Da inspiração
E voava.
Mas pouco a pouco,
Como quem desperta,
Dei conta da cegueira.
E fui perdendo altura.
Agora,canto apenas
Ao rés-do-chão da vida,
A olhar o descampado
Do  céu azul
Aberto à graça doutras emoções.
E o canto é triste assim desiludido.
Falta-lhe a perspectiva e o sentido
Que tinha quando eu tinha as ilusões.

MIGUEL TORGA

DIÁRIO XV


COIMBRA,23 DE ABRIL DE 1988

Telefonema penoso. A voz de lá a falar de sucesso e a minha de cá a responder-lhe com o cepticismo de quem já viu muitos arraiais e não corre a foguetes. Só acredita no triunfo quem se esquece da condição. E a nossa é a de mortais,a curto ou a longo prazo.

MIGUEL TORGA

DIÁRIO XV