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quarta-feira, 19 de julho de 2017

MALHAR SEM DESTINO

Ora a pobre da senhora,para o que lhe havia de dar. É que não podia com os que mandavam,pois faziam-lhe eles uma muito desagradável impressão. E assim,vá de os desancar, a torto e a direito.
É claro que havia muito sítio onde bater,no corpo,mas ,também ,nas ideias dele,que sempre teria algumas,de resto,o que mais desagrado lhe provocava. Nas ideias, não lhe dava jeito,não se sabendo porquê,por ela nunca o revelar,mas no corpo,sim,não mesmo nele,mas num figurado,assim como numa espécie de um boneco que o representava,uma caricatura dele. E aquilo era um malhar sem destino.
Depois deste desancar,ela,certamente,deveria ficar muito satisfeita,assim como ter o dia ganho,embora isso não se visse por ela saber muito bem disfarçar. Seria lá uma satisfação interior,lá muito dela. Mas seria uma satisfação volátil,porque quase nem se dava por ela. E a explicação era simples. É que ela,ainda não tinha terminado um bater,já estava a pensar no próximo,que não deveria tardar.

MUITO POÉTICO

Um pastorinho,ou uma pastorinha,tanto faz,uma criança de meia dúzia de anos. Que lindo,não é? De arripiar. Ao frio,à chuva,aos ventos,aos perigos,sujeita aos lobos maus. Muito poético.

terça-feira, 18 de julho de 2017

HÁBITOS

Tinha sido uma coisa sem jeito nenhum,uma coisa sem explicação. Antes de se fazerem à estrada,quer dizer,de irem por esse mundo vário,tinham ouvido muitas recomendações. Olhem que não façam isso,e mais aquilo,que é o que quase toda a gente tem feito.
Pois ,mal lá chegaram, fizeram tudo ao contrário,quer dizer,fizeram como,pode dizer-se,vinha sendo feito,desde sempre,sem tirar,nem pôr. Uma coisa,
claramente,sem jeito nenhum.
Mas então,que recomendações tinham sido essas,para se ficar a conhecê-las,o que podia servir para alguma coisa? Era uma série delas,mas bastava dizer uma,para se ver logo a qualidade delas. Quando lá chegarem,ocupem os últimos lugares.
Nessa não caíram eles,vá-se lá saber porquê. Hábitos,foi o que foi,que são uma segunda natureza,pelo menos,é o que se diz. Foram logo a correr para os lugares da frente,onde se instalaram muito açafatados,por sinal,uns ricos cadeirões. Nos lá de trás,nem pensar,que eram uns pobres banquinhos,alguns,até,quase a
partirem-se.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

DE MAUS MODOS

Dizem que os elefantes,próximos do termo da vida,talvez desiludidos dela e talvez magoados por muitas desconsiderações,abandonam a manada,para, sozinhos,aguardarem o sinal da partida para o outro mundo.
A ser verdade,não parece isso sem sentido. Alguém,daqueles que se habituaram a ver como os seus piores inimigos,até poderá pensar que eles é que fazem bem. Livrar-se-ão de tratamentos desagradáveis ,para não dizer outra coisa menos leve,o que lhes mitigará a tristeza do adeus final,se é que alguma já sentiriam.
Tão poucas vezes a vida sorriu para tanta gente. E não será de esperar que no findar dela a alegria venha neles morar. Ainda ontem ela lhes virara as costas,de maus modos. Não era caso para isso,mas o que se há-de fazer,se ela também anda pelas horas da morte,tantas são as desgraças que por aí andam?
A pouca que resta tem de ser guardada para os mais novos,que esses têm muito tempo ainda para andar por cá. Agora os velhotes,que tenham paciência. Tivessem-na procurado e armazenado,quando ainda havia em quantidade. Os elefantes,afinal, é que têm razão. Para ver o que estão a ver e a sentir,se ainda sentem alguma coisa,o melhor é ir lá para longe,onde não incomodem e não sejam incomodados.

terça-feira, 13 de junho de 2017

GAGUEJAR

Eram três a exame. Um,coitado,já se tinha perdido a conta das vezes que lá ia. O professor,condoído,mandou-o em paz,depois de duas ou três perguntas a despachar. O segundo,levava a melhor nota do ano. Talvez para ele não se julgar o melhor do mundo,o professor não o poupou. Por um triz,ia chumbando. O terceiro,lá se aguentou mais ou menos,talvez um pouco melhor do que menos. Não admira,pois,que o seu gaguejar se tivesse acentuado,de modo a dar nos ouvidos das testemunhas. Olha que não sabia que gaguejasses tanto.

A ESCALDAR

Parecia estarem combinados. Ainda na véspera se tinham cruzado,pela vez primeira,e ali estavam ,de novo, frente a frente. O ar dele,coitado. Teria encontrado a porta fechada,e viria de barriga a pedir que a enchessem.
Numa primeira reação do outro,recebeu apenas uma saudação. Mas não demorou este a emendar. Saudações não matam a fome. Olhe lá,onde tem aí um bolso? Obrigado. O tom deste obrigado era de fazer chorar as pedras da calçada,naquele caso,mais exato,o asfalto a escaldar.
É claro que o gesto do outro ficara-se por ali,uma coisa avulsa. Momentos sem continuidade,de não resolução. E era disso que se precisava,que tarda,sem resposta capaz à vista.

domingo, 11 de junho de 2017

UM CASO TRIVIAL

Eram uns peixinhos muito vorazes aqueles. Mal se abeirava gente,punham-se logo todos de bocarra bem aberta,muito juntos,em jeito de competição. Não lhes chegaria a comida que o amo lhes dava.
Um pai de família sabia disso. E assim,viera de casa bem aviado. O filho havia de se divertir muito. Quando se preparava para entrar em cena,uma voz forte susteve-lhe o gesto. Via-se bem que o dono dela,coitado,não regulava bem da cabeça,mas conhecia a lei que ali vigorava. E isto mais o travou e enleou. Ser repreendido,diante de testemunhas,por um sujeito daqueles.
Esteve ali uns momentos,momentos terríveis, sem saber o que fazer,parecendo bloqueado. Submeter-se àquele sem juízo,nunca,só por cima do seu cadáver. E era tão simples. Bastava uma moedinha numa máquina,ali à sua mão,tal como outros,a seu lado,já tinham feito.
E sucedeu o que era de esperar. O filho que tivesse paciência. Viriam noutra ocasião. Naquela,já se estava fazendo tarde.
Um caso trivial,a modos de exemplar. Ah,estes respeitos humanos.

sábado, 10 de junho de 2017

AZEDUME


Era um caso de muito pensar. Viera ao mundo carregado de dotes,
pelo que arrumava a um canto,muito tolhidinho,o comum dos mortais,
assombrado com tanta luminosidade.
Deveria espelhar-se,assim,em toda a sua figura,mas,muito em especial,na sua cara,nos seus olhos,na sua boca,uma satisfação imensa,única,irrompendo lá de dentro, impetuosamente,mil vezes incontida.
Mas não,mas tudo muito ao contrário. E era um azedume que dele brotava,por
tudo,e por nada,azedume nos gestos,azedume nos olhares,mas muito,muito acima destes,azedume nas palavras,de um azedume tal que parecia tudo querer dissolver.

TRIUNFOS

É um simples banco de pedra. E nele estão inscritos,singelamente,uma data,perdida no tempo, e uns dizeres. Fora ali,sobre aquela pedra,que ocorrera o nascimento de uma coletividade que se veio a cobrir de glória.
Não seria de esperar outra coisa,sabendo da personalidade que o testemunhou. É que ali muito perto,lá num alto pedestal,estava,e está,alguém que muito alto subiu. E esse alguém não podia ficar indiferente à vista daquela menina que acabara de vir ao mundo. Certamente lhe lançara as suas bençãos.
Ele,que tantas vitórias somara,havia de contaminar aquela criança. Muitas vitórias,de facto,ela veio a ter. Mas à semelhança dele e de tantos outros que se notabilizaram,chegaria um tempo em que vitórias deixariam de se ver. É,afinal, a vida,com os seus altos e os seus baixos. Por isso,o que importa é que a história não vai esquecer quem tantos triunfos alcançou.

CALAMIDADE

Em tempos de muito lá de trás,tempos perdidos,havia um servo cujo senhor o tratava assim assim. Esse senhor andava em demanda antiga com um outro senhor,por acaso seu vizinho,que lhe queria palmar os bens. Se isso,um dia,viesse a acontecer,quer dizer,os bens mudarem de dono,era coisa considerada mais que certa que o pobre do servo iria passar uns muito maus bocados,de tal maneira,que nem saberia de que terra era. Postas as coisas nestes termos,que inteiramente,sem qualquer dúvida,eram o retrato fiel do triste futuro que o servo esperaria,esse,e,claro, toda a sua numerosa família,não se cansavam de pedir,todos os dias, a todos os seus santos,e mais alguns,que tudo fizessem para que uma calamidade dessas nunca se viesse a abater sobre eles.

DESFILAR DE TEMPOS PASSADOS

Fazia a velhota muita falta ali. Toda vestida de negro,aliviava-se. Entre dois carros estacionados junto ao passeio,como a esconder-se,de pernas em arco alongado,olhava,consternada,para o chão.Um regatozinho corria para a valeta.
Habituais figurantes lá iam desfilando. No carrinho de mão desconjuntado,a mãe trazia as pernas enganchadas no rebordo. Já há uns dias que se não viam juntos. A família podia,de novo,pavonear-se por aquelas ruas.
O homem da bandeja trocara o chapéu por um turbante de cores garridas. Sentado num banco,espantava os pombos com a sua voz de tribuno. Por via do frio,envolvera os pés com sacos de plástico.
O palmilhador das sete léguas vestia de maneira mais cuidada. O seu raio de ação não dava,porém,sinais de encolher. A paisagem não lhe interessaria, pois não tirava os olhos do chão. Talvez o considerasse o seu melhor amigo,pois não se cansava de o acariciar. Admirava como ainda não o tinham contratado para fazer publicidade. Provavelmente,nem aceitaria retribuição.
Os contentores de lixo não paravam de ser visitados,embora se fosse notando uma quebra na procura,talvez por a sua riqueza ter diminuido,sabia-se lá porquê.
A mulher-homem,para fugir ao mau tempo,arranjara poiso numa gruta de prédio de luxo. Lá prosseguia na sua interminável ladaínha,inspirada por repetidas libações.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

NATUREZAS VIVAS

Vinte e cinco anos a viver em Paris e nem uma só vez fora espreitar o Louvre lá por dentro. Tivera ele muito mais que fazer. Que lhe adiantaria ter dado esse passo? Seria um passo perdido,e ele não podia perder um sequer.
Dera muito bem conta do recado,sem ele e outros da mesma laia. Criara cinco filhos,todos bem encarreirados. E ainda sobejara para meia dúzia de prédios,que se podiam ver,dois,até,em Paris.
Lançara-se em boa hora à aventura. Moirejando dia e noie,que a maré é para aproveitar,não enjeitando qualquer serviço,acabou por chegar a mestre de obras. Nem os fins de semana escapavam.
Não havia tempo a perder. Só o indispensável,para comer e dormir. Mesmo ali a dois passos,havia coisas para visitar,que ele bem as via,mas ficaria para depois. Não iriam sumir-se.
Tinha mais em que se entreter,como cuidar do estômago e da roupa. Até arranjou um canto para plantar umas couves. Era,afinal,o seu Louvre,cheio de naturezas vivas. Ajudara-o a matar saudades da santa terrinha e a fome.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

APARIÇÃO

Finalmente,ele apareceu lá no topo da escada íngreme. Parecia uma aparição,tal a parecença com o retrato do Desejado,da autoria de conhecido pintor. Acabara de regressar de um passeio a cavalo pela sua herdade.
Sim,estava a lembrar-se do pedido de há uns dias. Se estiverem interessados,podem ficar com essa parcela,a que está aí,para lá desse cercado,as outras já estão reservadas para as próximas sementeiras.
Não servia,pois não tinha as necessárias dimensões. Ficaria para outra vez,que não teve vez. Mas fora uma grande pena,pois não mais houve oportunidade de,novamente,estar perto de alguém que era mesmo a figura do Desejado.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

INCORRIGÍVEL

Logo no primeiro dia,lá na estância de férias,punha os que ela apanhava a jeito ao corrente da sua trepidante vida. Para abrir,era doutora. Mas para o ser,o que ela tinha passado não o desejava ao seu maior inimigo. É que já não era nova,muito longe disso,quando pensara em tal. Mas alimentara sempre esse sonho durante décadas. E um dia,chegara ocasião propícia e ela agarrara-a com todo o seu querer e desembaraço. Depois,não era uma doutora para brincar. Desfazia-se em tantos trabalhos,que estava ali que nem se sentia. E indicava-os,e narrava-os. Das histórias dos outros não queria saber.
Tudo isto no primeiro encontro,no primeiro ano. Nos seguintes,a coisa começava sempre com um aviso. Desta vez,venho só para descansar. Assim fazia no primeiro e no segundo dias. Levantava-se tarde,vinha tarde para as refeições. Mas podia ela lá resistir,podia ela lá desperdiçar aqueles magníficas oportunidades de mostrar os seus feitos,os seus muitos triunfos. E era um desbobinar OVEL

terça-feira, 6 de junho de 2017

LIMITE

Tudo tem um limite. O chefe,volta não volta,mimoseava-o com uma negativa,sempre coisas muito desagradáveis. Parecia ter gosto nisso. Estava a ser demais. Era quase um massacre. Que diabo,o pobre do subordinado não era assim tão incapaz. Ele estava,pois,a precisar de as ouvir. O pobre não sabia como proceder,o que dizer-lhe,e ia adiando. Mas um dia,tinha de ser.E esse dia chegara. Entrou no vasto refeitório e viu o chefe sozinho na sua mesa,a mesa dos VIPS. Foi ter com ele,sem saber bem o que dizer. Aquilo foi uma coisa espontânea,como caída do céu. O senhor ainda me há-de anunciar o dia da minha morte. E por ali se ficou. Também não era necessário mais. Estava tudo dito. O chefe abriu muitos os olhos,de espantado,e sentou-se. Tinha-se levantado para o ouvir,como mandam as boas regras. Não abriu bico. E o subordinado foi sentar-se na sua mesa,como se nada de extraodinário tivesse acontecido.