quinta-feira, 1 de outubro de 2015
NÃO DAVA UM PASSO
Olá Senhora Dona Árvore,bons olhos a vejam,assim já acordada. Olhe que já não era sem tempo,devia estar muito estafada. Também não era para menos. Essa roupa que agora já vai dando um ar da sua muita graça deve-lhe dar um trabalhão. Sim,que ela significa uma grande azáfama,ainda que não o mostre,que a Senhora é muito modesta. É claro que o Sol está ali para a ajudar,que foi,em grande parte,para isso que ele foi criado. Sem Ele,tem de concordar,a Senhora não era nada,desculpe que lhe diga. Eu sei isso muito bem. Tem razão,não era nada,mesmo nada. Este tronco,estes braços,esta roupagem, a Ele os devo,mas também não nos podemos esquecer do anidrido carbónico, e da água, e da terra,que sem eles não dava um passo,um modo de dizer. Pois é,Dona Árvore,mas não foi para isso que aqui estou a comprimentá-la. Foi para lhe desejar um bom ano,que,a bem dizer,está começando para si,que se adorne como a temos visto até aqui,que se alegre muito com a passarada que a visita sem descanso,e também com o consolo que dá a tantos que se vêm sentar à sua sombra nesses poiais que aí puseram. Que DEUS a conserve por muitos anos,que bem merece.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
A FOGO
Aquelas marcas não mais seriam olvidadas,referências de um trajeto que tantas vezes se fizera de forma lúdica. E era a vala que sangrava a lezíria,e era a casa da guarda, onde estavam assinalados níveis de cheias,e era o mar de vinhas,para onde quer que a vista se estendesse,e era o túnel de ramalhudas amoreiras,e eram os resguardos na ponte,abrigos em caso de intempestiva passagem de toiros,e era o mítico Tejo,e era a fonte de salobra água,que não se enjeitava,e era o carreiro,talvez do tempo dos mouros,que circundava o morro. Foram marcas como que gravadas a fogo.
CADEIA DE VIDA
É um encanto aquela nascente,sempre a jorrar,dia e noite,noite e dia. Brota a água com ímpeto,como que falando,dizendo que está ali,para lavar,e durar. Está lá num alto,mas ali à volta,há altos mais altos.
Sai a água de uma fresta de rocha dura. Fará isso,não desde o princípio do mundo,que o mundo deu muitas voltas,mas desde há muito,muito tempo. Fazendo-lhe sombra,erguem-se,pujantes,
meia dúzia de palmeiras muito juntas,ali postas para grandes ócios,que aquele canto é quase paradisíaco. Muita história este canto terá para contar.
Dantes,aproveitando aquele manancial,criou-se por ali muita hortaliça,depois veio o abandono. Mas não há mal que sempre dure,e hoje,lá encanta um ou outro que a visita,ainda que veja aquele caudal enfiar-se pelas funduras,talvez a alimentar outras nascentes. Será ela o elo de uma cadeia,de uma cadeia de vida.
Sai a água de uma fresta de rocha dura. Fará isso,não desde o princípio do mundo,que o mundo deu muitas voltas,mas desde há muito,muito tempo. Fazendo-lhe sombra,erguem-se,pujantes,
meia dúzia de palmeiras muito juntas,ali postas para grandes ócios,que aquele canto é quase paradisíaco. Muita história este canto terá para contar.
Dantes,aproveitando aquele manancial,criou-se por ali muita hortaliça,depois veio o abandono. Mas não há mal que sempre dure,e hoje,lá encanta um ou outro que a visita,ainda que veja aquele caudal enfiar-se pelas funduras,talvez a alimentar outras nascentes. Será ela o elo de uma cadeia,de uma cadeia de vida.
UMA GRANDE DESCOBERTA
Ele estava muito satisfeito,tão satisfeito,que ali à roda diziam que nunca o tinham visto assim. O caso não era,de facto,para menos. Eles é que não sabiam do que se tratava,pois tinha-se fechado em copas. Os outros que se admirassem,ou julgassem o que entendessem. Isso pouco lhe importava.Afinal,do que é que se tratava? É que,certa noite,uma noite muito escura, ele tinha feito uma grande descoberta,pelo menos assim pensava que tivesse sido. Que era uma descoberta e que era grande. Podia estar enganado,mas isso já não era com ele.E um dia,depois ,também,de muito pensar,decidiu revelá-la a um que ia ali a passar,porque com os amigos não valia a pena. Lá vens tu com mais uma das tuas. E fariam chacota.Durante muito tempo ele pensara que alguns não se lhe chegavam por julgarem que ele se considerava superior. E isso não toleravam,não suportavam,alás,com toda a razão. Ele que ficasse por lá a curtir a sua superioridade.Mas naquela noite,uma noite muito escura,a deusa da inspiração fizera-lhe uma visita. Tinha de ser,porque sozinho não chegava lá. Sem essa essencial ajuda,continuaria no saber antigo.E qual fora essa grande descoberta? Que eles não se lhe chegavam,simplesmente,por se acharem muito superiores,não dando confiança a qualquer um.
Subscrever:
Mensagens (Atom)