domingo, 10 de junho de 2018
ALGURES NESTE VALE - PARA AS VIAGENS
Durante muitos anos, esteve ele sentado, por largas horas, junto a uma janela. Foi melhor assim do que permanecer na sua cama. Aqui, veria,apenas,a bem dizer,o tecto. Sentado,por detrás da sua janela, era muito outra a paisagem,uma paisagem rica. Nela,salientava-se um cipreste,uma ponte e uma imagem. Nem de propósito. O cipreste,era um sinal da sua segunda morada. A imagem,o símbolo da morada definitiva. A ponte,era para as viagens. Isto,só de encomenda.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
ALGURES NESTE VALE - FAZER FIGURA
Viera para a cidade ainda era ele um moço novo,mas tivera de ser, para alivar os pais,que não sabiam para onde se voltar. De início,passou tratos de polé,o que já não era novidade para ele. Com a ajuda deste e daquele,e também dalguma sorte,lá conseguiu ter loja sua. De vez em quando,visitava a santa terrinha,não só para mostrar que já não era o labrego que de lá saíra,mas,sobretudo,para ver se uns quintais de que ele se enamorara ainda lá estavam. Um dia,deviam ser dele. E assim foi acontecendo, a pouco e pouco. É que lá na cidade fazia vida de pobre,pois todas as poupanças reservava-as ele para lhes pôr a sua marca. E logo que chegava,postava-se num alto, para os poder ver a todos. Certa vez,viram-no numa partida para férias. Ia a pé,pela avenida,levando uma grande mala, das antigas. A mulher caminhava à frente,um pouco mais leve. Podia ter chamado um táxi para os levar ao comboio,mas nem pensar nisso. Isso era para gente rica ou desgovernada. Era lá,na santa terrinha,que ele tinha de mostrar quanto valia,não ali,na cidade. Ali,era para forrar,para passar mal. Para ,depois,ir lá gastar,à vista de todos. Era lá que estavam alguns da sua criação. Era lá que ele tinha de fazer figura.
ALGURES NESTE VALE- PROPAGANDA
Compreende-se muito bem que haja quem não goste nada de ouvir o que se diz para aí sobre alterações climáticas,como as secas,as enxurradas,o derretimento dos gelos lá dos polos,a subida do nível da água dos oceanos,a acidificação destes,o borbulhar de metano no "permafrost",os ursinhos brancos verem os gelos fugir-lhes debaixo das patinhas,os pobres peixes não saberem de que água são,a fumarada que por aí vai,o oxigénio a mais que havia para a gente respirar ser gasto nesses fumos,a desflorestação que não pára,o uso crecente de queimadas,os buracos que por aí havia lá nas funduras,cheios de "crude" e de gases,e que vão ficando à espera de que os encham outra vez com os tais fumos,podendo,até,sabe-se lá, estarem a ajudar os tremores que por aí se dão. Enfim,compreende-se muito bem. Não me venham para cá com essas tolices, essas invenções,isso é tudo propaganda de gente que quer fazer figura,que não sabe fazer outra coisa. Ora deixem-me cá fazer a minha vida,comer descansado,para não perturbar as digestões,e gozar os meus fins de semana,e também as minhas férias,que a gente precisa trabalhar descontraído para ganharmos o nosso dinheirinho que tanta falta nos faz,que a vida está cada vez mais cara,por causa dessas novidades muitas que todos os dias vão aparecendo. Isso é tudo propaganda.
ALGURES NESTE VALE - TRAÇOS DE CRIANÇA
Era uma sala de espera,que se foi enchendo. Ele foi dos primeiros a chegar. Mal se sentou,abriu uma mala atafulhada de papéis,tirou de lá o pequeno-almoço e armou ali mesa. Estava muito atrasado,pois a manhã já ia a meio. Marchou,primeiro,uma carcaça e companhia,que não deixou de mirar,enquanto mastigava,deliciado. Seguiu-se um pacote de leite,que esgotou até à última gota,espremendo-o. A sua cara,de homem,aí de uns quarenta,mostrava,ainda,traços da criança que fora. Andava na distribuição de propaganda de um instituto de línguas. Eram cursos de inglês,de francês,de italiano e de alemão. O alemão devia ser o mais fácil,no seu entender. Quanto ao francês e ao espanhol,esses é que eram puxados. Mas havia lá bons professores. Naquela manhã,começara tarde,pois tivera de ir pagar a água e a luz,visto ser o último dia. Mas contava dar conta do recado. Tratou,primeiro,daquela sala,que entretanto ficara bem composta. A mala ficou um pouco mais leve. Depois,tapando a calva reluzente com um boné de pano branco,lá a foi esvaziar. Enquanto esteve matando a fome,os seus olhos mostraram alguma inquietação.Estaria com receio de que o apanhassem ali sem estar a trabalhar.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
ALGURESNESTE VALE - DILÚVIO
Um passarinho procedia à higiene da manhã,enfiando,repetidamente, a cabecita na água límpida de uma poça minúscula. Após cada mergulho,sacudia-a com vigor,em jeito de claro regozijo.Ainda na véspera teria carpido. As árvores tinham perdido quase toda a folhagem e os seus habitantes,as muitas famílias de pássaros,sentiam-se desamparados. Um dilúvio passara por ali. Em viva chilreada,que mais parecia um coro de protestos,abandonavam os ramos despidos e procuravam abrigo em ressaltos das paredes dos prédios ou sobre os parapeitos das janelas. Seria,porém,muito fraca a protecção. A chuva desabava em catadupas,inundando a rua,desguarnecendo ainda mais os ramos,e escorria pels frontarias,encharcando tudo quanto estivesse exposto.O chilreio continuava,cheirando a grande mágoa. Aquela acolhedora rua fora a sua rica morada. Ali tinham namorado,casado,tido filhos,sonhado. Custava deixá-la,mas viam que tinha de ser, que tinham de ir em busca de outra,que aquela já não servia. Adeus, rua das nossas lembranças
ALGURES NESTE VALE - TUDO RASO
Uma força o dominava,uma força indomável, que ele aproveitava,para se vingar. Chegara a oportunidade. Impacientemente,esperara por ela,e ela aí estava,que tivesse vindo em boa hora,mas uma muito má hora para outros. Esperaria todo o tempo do mundo. Era como na selva,coisa de que ele,alás, gostava muito. Mas de quem se queria ele vingar? Nem ele o sabia,talvez vingar de todos,pois ele não distinguia.É que tudo quanto estivesse para além dele era "inimigo". A sua pele era a fronteira. O mínimo toque,ou a mais leve brisa,ou mesmo átomo,roçando a sua rica pele, era logo tomado como uma afronta,a axigir resposta adequada,a que lhe viesse à cabeça no momento. Era isso bem visível,denunciando-se ao mais pequeno gesto. Vivia para isso,para a vingança. E o tempo dela chegara. Ai de quem se pusesse à sua frente. Iria tudo raso.
ALGURES NESTE VALE - RELVADO NOVO
O velho sabia muito bem que o relvado lá do campo de jogos da escola secundária era artificial. E era assim,não por inquirir,mas porque era evidente,até uma criança o dizia. Talvez por isso,por ser evidente,o velho,uma manhã,por sinal,uma rica manhã de sol,de que se estava cheio de saudades,pretendeu ser esclarecido. E estava ali perto quem o podia esclarecer, precisamente três moços,quase homens,lá daquela escola. Este relvado não é natural,pois não? Não,é artificial,disse um deles. Mas aquele não,e aquele é,e aquele artificial,vieram com uma carga de dó tão grande,que metia mesmo dó. Coitado do velhinho,a querer saber uma coisa destas. É claro que isto não podia ficar assim,que era capaz de se dar por ali um triste dilúvio de tristeza. Pois muito obrigadinho pelo esclarecimento. Mais ainda, faço ardentes votos,ardentes e sinceros votos,podem crer,para que um de vocês,ou mesmo os três,o que seria muito melhor,viessem a inventar um relvado novo,que pusesse este a um canto. Os moços,como que se transfiguraram. Nem pareciam os mesmos de há bocadinho. Puseram umas caras muito sérias,tão sérias,que pareceu ao velho terem eles,os três,em colaboração esforçada,inventado mesmo o melhor relvado artificial do mundo.
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