quinta-feira, 6 de agosto de 2015
HUMILHADA
Parecia que ia dar tudo certo por uma vida inteira,de tão enamorados,mas ainda a cama estava quente,um modo de dizer,nasceu mais um desconcerto. E ali estava ela,de olhos congestionados,chorosos,e de cara com marcas recentes de maltratos ,de mão pesada,à mesa do café central lá da terra,acompanhada do marido,todo sorridente,como se aquilo tivesse sido obra do vizinho do lado.
A terra era pequena e quase tudo se sabia,sobretudo os desencontros. As conversas que se deviam ter nas outras mesas. Os olhares que se trocavam,os risos que afloravam,os sussurros que se adivinhavam.
Mas ela, coitada,uma jovem ainda,frágil,gentil,tinha de aguentar,pois o seu futuro estava ali,no emprego que arranjara,talvez com dificuldade. O dela e o do filho pequenino. Que o seu homem era muito capaz de um dia,porventura no seguinte , a deixar,sem mesmo lhe dizer adeus.
Causava profunda tristeza olhar para ela,enleada,humilhada. E causava ainda mais tristeza testemunhar a exploração que ali se fazia do seu caso. Era uma tristeza tão insuportável,que não dava para ali continuar. Era de fugir. Mas ela não podia. Ela tinha de ali permanecer.
A terra era pequena e quase tudo se sabia,sobretudo os desencontros. As conversas que se deviam ter nas outras mesas. Os olhares que se trocavam,os risos que afloravam,os sussurros que se adivinhavam.
Mas ela, coitada,uma jovem ainda,frágil,gentil,tinha de aguentar,pois o seu futuro estava ali,no emprego que arranjara,talvez com dificuldade. O dela e o do filho pequenino. Que o seu homem era muito capaz de um dia,porventura no seguinte , a deixar,sem mesmo lhe dizer adeus.
Causava profunda tristeza olhar para ela,enleada,humilhada. E causava ainda mais tristeza testemunhar a exploração que ali se fazia do seu caso. Era uma tristeza tão insuportável,que não dava para ali continuar. Era de fugir. Mas ela não podia. Ela tinha de ali permanecer.
FABRICO DO ARROBE
A vindima estava-se a aproximar, o que significava que se tinha de começar a preparar as coisas para o fabrico do arrobe. Mas isso era para as pessoas grandes. Eles que se mexessem,que a pequenada tinha mais com que se entreter.
Mas chegado o dia,aquilo para a miudagem valia muito mais do que a matança do porco. Não precisavam de serem arrancados da cama,como acontecia muitas vezes, que eles bem cedo se levantavam por sua própria vontade. Nem tinham dormido como devia ser,só a pensar na festa que os esperava.
E assim, lá se postavam no sítio do costume,num vasto pátio ao ar livre. Viam chegar os cestos,daqueles para os cachos,cheios de marmelos.Viam cortá-los em pedaços,que eram lançados em caçarolas de cobre,a brilhar. Viam derramar litros e litros de mosto,trazido diretamente da adega. Viam a lenha a arder,por baixo das caçarolas. Viam braços incansáveis a mexer e a remexer toda aquela massa olorosa.
Impacientes,não esperavam pelo fim. Eram eles os primeiros,a bem dizer,a provar aquele pitéu,arrriscando-se a queimarem as tenras bocas. Não queriam saber de avisos. O que eles queriam era apanhar os grandes desprevenidos,cortando-lhes as voltas.
Iam ter ao longo de meses muito com que se lambuzarem. Antes de partirem para a escola,nas manhãs frias,o arrobe encarregava-se de lhes dar energia para as brincadeiras intermináveis.
Mas chegado o dia,aquilo para a miudagem valia muito mais do que a matança do porco. Não precisavam de serem arrancados da cama,como acontecia muitas vezes, que eles bem cedo se levantavam por sua própria vontade. Nem tinham dormido como devia ser,só a pensar na festa que os esperava.
E assim, lá se postavam no sítio do costume,num vasto pátio ao ar livre. Viam chegar os cestos,daqueles para os cachos,cheios de marmelos.Viam cortá-los em pedaços,que eram lançados em caçarolas de cobre,a brilhar. Viam derramar litros e litros de mosto,trazido diretamente da adega. Viam a lenha a arder,por baixo das caçarolas. Viam braços incansáveis a mexer e a remexer toda aquela massa olorosa.
Impacientes,não esperavam pelo fim. Eram eles os primeiros,a bem dizer,a provar aquele pitéu,arrriscando-se a queimarem as tenras bocas. Não queriam saber de avisos. O que eles queriam era apanhar os grandes desprevenidos,cortando-lhes as voltas.
Iam ter ao longo de meses muito com que se lambuzarem. Antes de partirem para a escola,nas manhãs frias,o arrobe encarregava-se de lhes dar energia para as brincadeiras intermináveis.
SUPERIORIDADE
E ali ficaram os dois,ele e o judante. O jipe tinha mais que fazer. Como armas,um canivete,uma catana,e ,claro,um discreto sinal da cruz. Na frente,uma picada com uma enfiada de covas para examinar,e sabia-se lá mais para quê. Ao fundo,um morro,revestido de capim baixo,talvez a cama de pacaças. Logo se veria.
Estava tudo a correr como devia ser,e o morro lá continuava sem dar sinal de si. De repente,a restolhada já conhecida. Lá tinham acordado as pacaças. A confusão que por lá ia. Mas o seguro morreu de velho,e,portanto,ah pernas, para que vos quero.
Fogem os dois. Mas o ajudante é o primeiro a parar. Os olhos que ele deitava. Era um ajudante de ocasião,não era o habitual. Uns olhos de superioridade,uns olhos de chefe. Vem,podes vir acabar o trabalho,que quem manda agora aqui sou eu. Sem palavras,deu a odem com um movimento da sua cabeça.
O interesse dele,o mais natural,era ter continuado a fugir,como o outro. Mais cedo podia ir para casa. Mas não,estava experimentando uma situação nova,que,talvez,nunca tivesse saboreado. E ali estava a gozá-la. E o outro obedeceu . Foi acabar o trabalho.
Não mais se viram. O que teria acontecido?
Estava tudo a correr como devia ser,e o morro lá continuava sem dar sinal de si. De repente,a restolhada já conhecida. Lá tinham acordado as pacaças. A confusão que por lá ia. Mas o seguro morreu de velho,e,portanto,ah pernas, para que vos quero.
Fogem os dois. Mas o ajudante é o primeiro a parar. Os olhos que ele deitava. Era um ajudante de ocasião,não era o habitual. Uns olhos de superioridade,uns olhos de chefe. Vem,podes vir acabar o trabalho,que quem manda agora aqui sou eu. Sem palavras,deu a odem com um movimento da sua cabeça.
O interesse dele,o mais natural,era ter continuado a fugir,como o outro. Mais cedo podia ir para casa. Mas não,estava experimentando uma situação nova,que,talvez,nunca tivesse saboreado. E ali estava a gozá-la. E o outro obedeceu . Foi acabar o trabalho.
Não mais se viram. O que teria acontecido?
PARA SEMPRE
A senhora estava encantada. Seria tão bom ficar ali mais algum tempo. Seria tão bom ficar ali para sempre. Fora aquilo mesmo que ela sonhara.
Ia-se atrasando,demorando,ficando para trás. Sentou-se. Os outros que esperassem. Olhou em volta ,demoradamente,mais uma vez,e cerrou os olhos,como a querer guardar toda aquela riqueza,que estava prestes a perder.
Chegavam-lhe ondas de perfumes de muitas flores,da grande mata envolvente. O ar estava sereno. Apenas ouvia o falar de um ou outro passarinho.
Ali muito perto,teria cama,mesa e roupa lavada. Era o lugar ideal. Assim ela pudesse. Os outros que regressassem,que ela ficaria ali para sempre.
Ia-se atrasando,demorando,ficando para trás. Sentou-se. Os outros que esperassem. Olhou em volta ,demoradamente,mais uma vez,e cerrou os olhos,como a querer guardar toda aquela riqueza,que estava prestes a perder.
Chegavam-lhe ondas de perfumes de muitas flores,da grande mata envolvente. O ar estava sereno. Apenas ouvia o falar de um ou outro passarinho.
Ali muito perto,teria cama,mesa e roupa lavada. Era o lugar ideal. Assim ela pudesse. Os outros que regressassem,que ela ficaria ali para sempre.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
CALCÁRIO
Estavam preocupados,ou assim parecia,com a qualidade da água que saía das torneiras,pelo que se dispunham a alertar os utentes. Para isso,faziam um contacto telefónico prévio,a preparar uma visita-inquérito,prestando,desde logo,algumas informações.
Sabe,a água deve ter calcário. Desculpe,mas isso é que não pode ter,porque é uma rocha. O que quer dizer é que deve ter cálcio,ou melhor,o ião cálcio. Sim,é isso. E por ali se ficou.
Sabe,a água deve ter calcário. Desculpe,mas isso é que não pode ter,porque é uma rocha. O que quer dizer é que deve ter cálcio,ou melhor,o ião cálcio. Sim,é isso. E por ali se ficou.
NOS SEUS CANTOS
Na primeira visita,vira-se logo que ali não se fazia grande coisa. As pessoas mexiam-se,andando de lá para cá e ao invés,mas não passava disso. Só movimento para estranho observar. O bar registava notável azáfama de esfomeados,ainda que há pouco tivessem pegado na enxada. Um ou outro circulava com papéis na mão,com ar de que seriam importantes. Pessoal da limpeza manejava ,displencentemente,os instrumentos do ofício. O que,aparentemente, mais se esforçava era o jardineiro. Estava lá fora um calor de arrasar,o que convidava a resguardar-se,mas insinuou que o mandariam passear se procurasse refúgio.
Passados alguns dias,calhou,de novo,passar por lá. A impressão que se guardara ficou como estava. Parecia estarem programados. Seria do hábito,que,como é uso dizer-se,é uma segunda natureza. Que belo sítio para descansar. De quê? Talvez das noitadas. Eram jovens os que mais se viam. Começavam cedo a mandriar. Haveria exceções,certamente. Estariam por lá,nos seus cantos,como que escondidos,provavelmente,receosos de causar alguma perturbação.
Passados alguns dias,calhou,de novo,passar por lá. A impressão que se guardara ficou como estava. Parecia estarem programados. Seria do hábito,que,como é uso dizer-se,é uma segunda natureza. Que belo sítio para descansar. De quê? Talvez das noitadas. Eram jovens os que mais se viam. Começavam cedo a mandriar. Haveria exceções,certamente. Estariam por lá,nos seus cantos,como que escondidos,provavelmente,receosos de causar alguma perturbação.
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