quarta-feira, 5 de agosto de 2015

BURACO TAPADO

O buraco já lá não está,mas encheu-se de água ,no inverno,por alguns anos. Era para se ter erguido ali um prédio de muitos andares. Lindos sonhos ele engendrou. A prespetiva mostrava-se,de facto,tentadora,em particular para alguns,que iriam ter morada mesmo quase à porta do emprego.

Seria para estes ouro sobre azul. E,assim,não havia fim de semana que não incluisse uma visita demorada àquele local. O buraco lá continuava,mas já se viam ali instalados ,olhando quase o mar,ali tão perto,e recebendo o cheiro a campo de uma vasta ária que reunia condições para resistir por muito tempo à onda de betão.

Mas o homem põe e Deus dispõe. E,inesperadamente,um certo choque ocorreu,produzindo sérios desarranjos. As contas não tinham tido em conta tal choque,e,assim,alguém iria perder muito dinheiro. Foi o fim dos lindos sonhos.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A VERMELHO VIVO

Com que então tem estado este tempo todo com fulano tal? E conhece os seus trabalhos? Sim,pelo menos,os mais relevantes. Então, deve conhecer este.
Ele já esperava aquela visita. Tivera,até, tempo de sobra para se preparar. E ali estava o resultado do esforço gasto em tal ação. Na sua frente,tinha um dos trabalhos do fulano. Duas páginas já estavam à vista. E numa delas via-se um traço horizontal a vermelho vivo.
E,apontando-o,disse-Viu aqui este erro?

UMA CASINHA

Essa máquina faz um bom serviço,não lhe parece? Corta a relva e deixa-a ficar na terra. Era um moço de vinte e três anos,alto e magro,de cara para o triste. Tinha vindo lá da sua terra distante há já seis anos.
Então, os seus pais,vieram também? Não,já têm a sua casinha. Quem o trouxe? Foi o meu primo,o encarregado aqui do jardim. Deve ter passado por ele,que anda lá para baixo a cuidar das palmeiras. Ele já tem também a sua casinha,ele e a minha prima.
Quereria,certamente,o moço triste poder ter,também, a sua casinha. Sonharia com ela,noite e dia,dia e noite.

A VISITA

Fora visitá-la. Era uma senhora já de muita idade,acamada há largos meses. Devia-lhe muito,uma dívida muito antiga. Tinha sido,pode dizer-se,uma sua segunda mãe. Mas isso já lá ia há um ror de tempo,talvez ela nem já se lembrasse. Mas mesmo assim,nunca ele se tinha esquecido. Há coisas que nunca esquecem,ou não deviam ser esquecidas. O que é que lhe havia de dizer? Não queria que aquele encontro,que podia ser o último,estivesse povoado de tristezas. Recordar-lhe momentos de festa que ela proporcionara seria uma boa saída. E foi o que fez. Via-se que ela ficara um tanto admirada. Não esperaria. Mas bem depresssa aceitou,com satisfação,aquela franqueza,aquela fraqueza,colaborando e recordando factos que se supunha estarem esquecidos. O prazer que aquilo lhe deu,até parece ter ganho novo alento. Estava ali um que lhe mostrava reconhecimento,ao contrário de outros,que fugiam de o manifestar. Com isto,ter-lhe-ia dado mais uma justificação para a sua longa vida,que não teria sido em vão. Prestes a encetar a tal viagem,estava ali aquele a lembrar-lhe que tinha sido amiga. Podia morrer descansada. Morreu,de facto,pouco depois. Parecia ter demorado,à espera daquela visita.

A DÍVIDA

Passava a maior parte do tempo de que ainda dispunha a descansar. Era o que o velho e achacado corpo lhe pedia,talvez para não estranhar depois o que tinha como certo,o descanso definitivo.
E fora assim,deitado,que ele lá estava no banco do jardim,à espera de que se abrisse a porta da sopinha,ali mesmo em frente. Dessa vez,levantou-se logo,compondo-se o melhor que pôde,para receber a visita. Sonharia com ela.
Não se sabe se seriam de encantar os sonhos. Por um lado,talvez gostasse delas,por as mãos não virem vazias. O pior era a dívida que ia crescendo,e ele,coitado,não tinha como a anular.
Não era ele o primeiro,nem seria o último,está mais que visto,a ter por companhia teimosa o espectro da dívida,a lembrar-lhe para sempre de que precisara,de que estendera,ou não,a mão,o que ia dar ao mesmo. E isso,certamente,o magoaria,a ponto,talvez,de exceder o gosto da dádiva.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

EMPREITADA

Eram quatro barras metálicas,pesadas,deixadas num descampado,junto a uma rotunda de contínua circulação. Talvez estivesse ali uma fortuna,quem sabe?
E assim,um velhote,alto,muito magro,apoiado numa bengala,tratou de as levar ,uma a uma,para um sítio onde,facilmente,as pudessem vir buscar.
O barulho que daqui resultou,pelo arrastar,com uma corda,da preciosidade, sobre o asfalto,e os perigos a que o velhote se expôs,só ouvido e visto. Valeu-lhe a compreeensão de todos.
Da tal estafadeira,e sabe-se lá mais de quê,o velhote,no final da empreitada,não parava de gesticular e de consigo mesmo falar.

PRECIOSIDADE

Ele gostava muito do seu copito,e queria-o ter quando lhe aprouvesse. Para isso,trazia sempre com ele,na sua volumosa pasta,de companhia com livros,pois era uma pessoa muito letrada,uma garrafinha com o vinho da sua preferência.
Um dia,descuidou-se,e a pasta foi bater em sítio duro,quebrando-se a garrafinha. À vista de tal desgraça,da pasta a sangrar,que a preciosidade era do tinto,não se conteve,e desabafou,muito pesaroso. Lá se foi o meu rico lambedor.