Mostrar mensagens com a etiqueta ERA UMA VEX. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ERA UMA VEX. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de junho de 2017

EMBOSCADAS

Coitado dele,que mal se tinha nas trôpegas pernas,que o muito alcool não deixava. Mas estava determinado. Queria visitar a catedral.
Venha daí que eu vou também. A vereda era estreita e um bocado acidentada,serpenteando por arvoredo denso. O rio também corria ali perto,e o céu borrifava.
Podia ter sido outro o encontro,mas calhou ser aquele. Talvez o dia tivesse afastado visitantes,
que o tempo não estava para se pôr a cabeça de fora,mesmo para os da casa. Estava antes para emboscadas,que a bruma mais facilitava.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

UMA VIDA A SALVAR

Aquela terra era uma terra maninha desde há muito e com o correr do tempo foi-se tornando cada vez mais sáfara. Por mais que a trabalhassem,só se conseguia tirar dela produto para uma única e magra refeição diária. Não podiam continuar assim,pois seria a morte prematura para todos. Tinham,pois,de dar com uma saída para esta insustentável situação,e o mais depressa que pudessem. Convocaram,então,uma assembleia magna,onde todos poderiam dizer da sua justiça,pois estava na mesa um caso muito grave,de vida ou de morte,como já se vinha desenhando desde que se conheciam. Após várias sessões,muito participadas e acaloradas,ainda que o calor não fosse por aí além,pareceu terem atinado com o que mais lhes convinha,visto não haver tempo a perder. Já tinham,até,perdido muito,e tempo,neste transe,não era dinheiro,mas antes vida,o que não é coisa com que brincar,sobretudo,quando se trata da vida dos seus,dos da família mais chegada ou mais longínqua,mesmo do vizinho do lado,qualquer que ele seja. Há sempre uma vida a salvar,o lema,alás,da magna assembleia. Acontecia que à sua volta havias guerras por tudo e por nada. Era a triste sina dessa gente,e constava,até,que de muito mais gente,só não sabiam era onde. Talvez lá longe,diziam os mais velhos,que os de outras idades,em particular os rapazotes,pensavam noutras coisas,o que já era muito. Tinham-lhes chegado notícias,não se sabia por que vias,de grandes mortandades,que estavam levando a uma grave,desesperada,escassez de peões para as batalhas inúmeras. Persistindo os eternos contendores, os inimigos assim chamados,era a sua triste sina,andavam contratando pessoal,a qualquer preço,que para guerras dinheiro aparece,como por encanto,ou talvez não,sabe-se lá,de países vizinhos e mesmo de longe,muito longe. Ora ali,naquela terra três vezes maninha,gente era o que não faltava. Sucedia,até,ter aumentado muito,inexplicavelmente ou não,nos últimos anos. Talvez,diziam,outra vez,alguns dos mais velhos,porque com os mais novos não se podia contar com eles,cá por certas coisas,se tratasse assim dum fenómeno,como o que se passava com as árvores a despedirem-se. Depois,era gente frugal e rija.Tirando a fome a crescer,do resto era raro queixarem-se. Parecia,assim,à evidência,que estavam mesmo calhados para as tais guerras sem fim,em que,alás,diziam os livros,de cá e de lá,nunca se tinham metido. E acontecera isso,não por um mero acaso,mas por uma razão muito comezinha. É que ali à volta não havia ninguém que desconhecesse,até as crianças,que aquela terra era terra que nunca valera nada. E além de tudo o mais,estavam mais que disponíveis,estavam ansiosos,como de pão para a boca. E foi o que constou por muitos quilómetros em redor,e até lá muito longe. E foi a salvação de muitos,não de todos,claro está,pois é sabido, desde sempre,desde que se conheciam,que quem vai à guerra dá e leva. Tinham dado,pois,com a tal saída,o que já não era sem tempo.

FABRICO DO ARROBE

A vindima estava-se a aproximar, o que significava que se tinha de começar a preparar as coisas para o fabrico do arrobe. Mas isso era para as pessoas grandes. Eles que se mexessem,que a pequenada tinha mais com que se entreter.
Mas chegado o dia,aquilo para a miudagem valia muito mais do que a matança do porco. Não precisavam de serem arrancados da cama,como acontecia muitas vezes, que eles bem cedo se levantavam por sua própria vontade. Nem tinham dormido como devia ser,só a pensar na festa que os esperava.
E assim, lá se postavam no sítio do costume,num vasto pátio ao ar livre. Viam chegar os cestos,daqueles para os cachos,cheios de marmelos.Viam cortá-los em pedaços,que eram lançados em caçarolas de cobre,a brilhar. Viam derramar litros e litros de mosto,trazido diretamente da adega. Viam a lenha a arder,por baixo das caçarolas. Viam braços incansáveis a mexer e a remexer toda aquela massa olorosa.
Impacientes,não esperavam pelo fim. Eram eles os primeiros,a bem dizer,a provar aquele pitéu,arrriscando-se a queimarem as tenras bocas. Não queriam saber de avisos. O que eles queriam era apanhar os grandes desprevenidos,cortando-lhes as voltas.
Iam ter ao longo de meses muito com que se lambuzarem. Antes de partirem para a escola,nas manhãs frias,o arrobe encarregava-se de lhes dar energia para as brincadeiras intermináveis.

terça-feira, 30 de maio de 2017

MAIS QUE FAZER

O rei não ia nu,antes pelo contrário,mas ia só. Parecia isso uma grande ousadia,pois era sabido que muitos perigos o espreitavam. E a rua que ele descia estaria cheia deles. Tratava-se,de facto,de uma vereda muito apertada,quase imitando um desfiladeiro,de passeios miniaturais.Não admiraria,assim,que os serviços competentes ,muito previamente,tudo tivessem feito para garantir a segurança de sua majestade. A rua estaria vigiadíssima,só que não se notava à vista desarmada. Foi o que constatou um velho,que,por um muito mero acaso,se viu a caminhar atrás do rei. Olha,mas é o rei,e não leva séquito. Donde virá ele e para onde irá?Rapidamente ficou tudo esclarecido. É que,atentando melhor,deu conta de grande festa ali mesmo a dois passos. Estar-se-ia fazendo tarde e outra festa o esperaria,que os reis precisam de se distrair.Talvez sem dizer água-vai,o que não seria de estranhar,ele ali ia muito serenamente,sem olhar para trás,nem para os lados,que ele saberia estar bem guardado,para a sua carruagem,estacionada uns cem metros abaixo,numa meia-laranja,muito conveniente em garganta como aquela.Porque o velho aparentava não fazer mal a uma mosca,não fora incomodado na sua digressão ocasional. O mesmo aconteceu a um casalinho, entretido nos seus amores. Nem deram conta do velho,nem do rei. Tinham mais que fazer.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A DOBRAR

Não há duas sem três. Aquela fora a segunda,mas não se ficará pela terceira,que ele está ali para durar. É que se dá ao luxo de andar em camisa com tempo frio. Empreste-me um euro. Vinha,como noutras ocasiões,com um saco de plástico, cheio de coisas de contentores de lixo,coisas de comer. Afinal,não são para ele,mas para ovelhas,aí uma meia dúzia,de um seu amparo,que,de vez em quando,lhe arranja uns biscates. É um euro? Sim,é só um euro. Mas,à vista do porta moedas aberto,retificou. Empreste-me dois. Quando puder,pago-lhe a dobrar.

O SEGURO MORREU DE VELHO

Aquele crocitar não enganava. Era sinal de mais um visitante daquele jardim. Já se tinham visto por ali gaivotas,pombos,melros,rolas ,pardais e outros que tais,mas corvo é que nunca. Pois ali andava ele naquela manhã de sol. Ouvira-se,primeiro,a sua voz inconfundível. Devia estar próximo. E, de facto,não se fez esperar. Esteve uns segundos a descansar na relva,que o seguro morreu de velho. Depois,há asas para que vos quero. Uma árvore ramalhuda estava ali perto e foi para ela que apontou. Mas donde teria vindo aquele corvo? Não tardou muito a saber-se. Era preciso ali alguém que desse ordens,pois aquele jardim já estava a ficar um tanto seco. E esse alguém apareceu a dá-las. Tinha ele um ar de chefe. Trazia,pelo menos,muitas chaves bem à vista. Seria um homem de muitas portas. E uma delas talvez fosse da porta onde morava o corvo. O certo é que os dois deram mostras de se entenderem. Aquela árvore teria sido o ponto de encontro. Pareceu até que conversaram.

domingo, 21 de maio de 2017

ESPLENDOR E REALIDADE

Quem não se apiedaria à vista daquele quadro,de há muitos anos? Estaria ali deslocado,um tanto escondido,no meio de tanto fascínio. Uma velhinha contava as escassas moedas que lhe restavam. A consternação que vinha de toda a sua figura. Não se lhe viam lágrimas,talvez porque as não tivesse já,tantas teria vertido ao longo da sua longa vida. Acompanhava-a a netinha,de ar não menos triste. Por detrás,quase a tocar-lhes,uma montra exibia,provocadoramente,o seu magnífico recheio,umas ricas peças de carne,de vermelho vivo. Bom jeito lhes faria uma pequena fracção de qualquer delas. Mas como obtê-la? O seu dinheiro não dava para tal luxo e assim, nada feito. A avozinha havia de recontar uma e mais vezes,talvez na esperança de algum milagre. E chegaria sempre à mesma conclusão. Aquilo não era para elas,estava destinado a outras bocas. Mas porque diabo o teriam ali posto? Já era vontade de estragar a festa de todo aquele esplendor. Seria a realidade da época e havia que a respeitar.

terça-feira, 16 de maio de 2017

MAL DA VOLTA

Mesmo pujante,aquilo era pasto que já não servia. As vacas que ali tentassem fazer pela vida perdê-la-iam antes do tempo próprio. A erva estava doente. Mas de quê? Só muito tarde se veio a saber. Mas não ficaram à espera,pois havia que sustentar a família. Se ali não podiam permanecer,talvez noutro local,mesmo ao lado,as vacas medrassem como convinha. E foi o que observaram. Mais ainda verificaram que,decorrido certo tempo,o local maldito deixava de o ser. Era como se tivesse de ir dar uma volta ,para distrair ou para descansar,e como mal da volta ficou a ser conhecido. Não interessa aqui dar notícia do porquê de mal tão estranho. Basta dizer que lá,passado esse certo tempo,a terra se recompusera,fornecendo ao pasto o alimento necessário para confortar as vaquinhas. Faz isto lembrar movimentações bem conhecidas. E é vê-los,sós ou acompanhados,tocando,ora ali,ora acolá. E um dia,dada uma volta,regressam ao local de partida. Os sítios onde fazem pela vida parece,a dada altura,virem a padecer de um mal,um tanto ou quanto indefinido. Precisam também de que algum tempo se esvaia,para que os sítios,ou eles,se restabeleçam. Para isso,vão dar uma volta.