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terça-feira, 22 de agosto de 2017

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A CIRCUNSTÂNCIA

Sim,pode ser isso que cabou de dizer,mas também pode ser outra coisa. Sabe,há muitos fatores em jogo,alguns,até,desconhecidos,que o sistema é complexo,pois que de diversas vidas se trata. É difícil,arriscado mesmo,dar uma resposta concreta,ajustada,sem se terem feito experiências. Este senhor,coitado,deve saber muito pouco,sempre com hesitações,sem uma indicação precisa,imediata,ali na ponta da língua. Não presta,em suma. Não é assim que procedem tantos. Têm logo ali,pronta para servir,a solução definitiva. Como a arranjaram? Muito simples. Leram ali,leram acolá,e já está. Não importa que as circunstâncias fossem muita outras. Nem sabem,ou sabem,mas não ligam,que a circunstância é que comanda. Uns sábios,em suma. Uns sábios convencidos.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

COMO TINTAS

Dos oito iniciais,três escaparam-se muito antes do termo. Mas o encantamento foi tal,que quase se tornou necessário expulsar os cinco restantes. A história seria dispensável. Estava ali a desenrolar-se porque o artista precisaria dela para compor os seus quadros. Uma interminável galeria. Que cores. O branco parecia uma lâmpada de muitas velas a iluminar as cenas,um tanto penumbrosas,porque assim pedia a circunstância. Era como que a alma dela. Tempos românticos aqueles,os da acção,de contornos tão de conveniência. Muito diferentes dos tempos que correm. O parecer bem ou mal mandava nos procedimentos. Que importa porém isto? O dom do artista gera obras inconfundíveis,trazendo o seu selo. A contenção,o rigor,o essencial. Nada de supérfluo,de estar a mais. Até as figuras são como tintas. Um veio que dá mostras de não se extinguir.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

MAR DE ROSAS

As coisas iam acontecendo,coisas desagradáveis. Era isso bem conhecido,mas parecia não terem ocorrido. Quer dizer,fazia-se de conta que se navegava num mar de rosas. E lá se ia vivendo,uns dias,melhor,outros,pior.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

CARA RIDÍCULA

Ele andava muito ralado e não era para menos. É que já há dois tristes anos que não fora passar,pelo menos, uma mísera semana no estrangeiro,quer dizer,no país ali ao lado do seu. E estava a ver,coitado,que naquele ano iria acontecer o mesmo. A vida estava cada vez mais cara e o patrão não havia meio de dele se condoer.
Quando as férias acabassem,que cara poria ele lá no emprego,ao ouvir falar os colegas das delícias das suas em Cancún,nas Bahamas,em Cuba,em Miami,nas Seychelles,e assim por diante? Sim,que cara ele mostraria? Uma cara ridícula,certamente,se ele,coitado,a contrapor,quando muito,só poderia dizer que tinha gasto essa mísera semana em Paio Pires ou na Baixa da Banheira,sem menospreso,claro, por estas duas honradas terras.
Teria de ficar calado,reduzido à sua insignificância,engulir em seco,e começar a pensar em mudar de emprego,que naquele já estava aviado. Nem colegas,nem patrão lhe dariam a mínima importância. Não era ali mais do que um zero à esquerda. E então,minhas ricas encomendas. Nunca mais sairia do degrau de acesso,da soleira da porta.

domingo, 4 de junho de 2017

ESPERANÇA COMUM

Os grandes empreendimentos não cessam. Lançam-se pontes,abrem-se túneis,estradas,vias férreas,criam-se ou renovam-se espaços culturais. Um nunca mais acabar. Folgam mais uns do que outros. Calamidades abatem-se por quase toda a parte. Perdem-se vidas e haveres. A solidariedade desperta,procurando reparar os danos. As comunidades agitam-se para escolha de novos representantes. Fazem-se promessas de vida melhor,vindas de todos os quadrantes. Publicam-se livros. Editam-se versos. Narram-se histórias e apontam-se caminhos,alguns bem diferentes. Muito poucos dão conta. Há outros interesses,outras necessidades. É água que parece perder-se. Haverá um ponto de encontro de tudo isto? Dois ou três dirão que sim. Onde? Talvez nas esperanças difusas dos homens e das mulheres que constroem,que reparam,que prometem,que escrevem,que folgam,que sofrem,que escolhem,que lêem ou não. Um dia,fundir-se-ão numa esperança comum. Como? Talvez por efeito de um homem ou de uma mulher que,quase por milagre,contamine tudo e todos.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

PASSADO

Ainda os ouvira cantar pelas ruas,à noitinha,depois do regresso dos trabalhos. Soltariam as mágoas ou esperariam,deste modo,recobrar forças para o dia seguinte. Ainda os vira sentados em bancos corridos,servindo-se de sopas de pão que fumegavam. Ainda envergou os seus pelicos,quando o frio o atormentava e a eles não,porque a enxada ou a picareta os aquecia. Ainda sentiu o cheiro forte dos seus sobretudos de lã,lembrando pão saído do forno,quando o jipe ia trancado por causa das intempéries. Ainda os viu, atrás de muares,de mão na rabiça do arado rasgando a terra,orientando-se por belgas,ou pela ciência de anos sem conta,ou pela torre de algum castelo ou igreja. Ainda passou por muitas varas de porcos,engordando à custa de bolota dos montados. Ainda se refrescou com pirolitos feitos com água da Serra de Ossa. Ainda comeu à luz de candieiros a petróleo,em vilas cabeças de concelho,e viu correr esgotos a céu aberto.Ainda assitiu ao fabrico de carvão de sobro e de azinho. As fábricas lembravam afloramentos rochosos,que se somavam aos muitos que por lá existem. Não tiveram conta os quilómetros que andara de jipe por caminhos de herdade e os palmilhados por chão plano e por encostas a subir e a descer,umas vezes cobertas de searas e outras à espera de que lá as pusessem. Já passou por alguns "montes" adquiridos com o dinheiro da venda de meia dúzia de metros quadrados urbanos.