sexta-feira, 6 de julho de 2018

ALGURES NESTE VALE - PARA NÃO MAIS ESQUECER

O desafio. A doença. Os receios. O médico. Não pense nisso. Avance. O avião.O invisível cacimbo. O grande rio. A piroga. O sentar no fundo. O encharcamento. O jipe. O vermelho da terra,da poeira. O verde do amplo vale. Os dois rios mansos,de água verde-escura. As galerias de palmeiras. Os tufos densos das bananeiras. O capim seco,amarelado. A lixa de silica,solta,ao mínimo abanar. O capim verde,gigante ou anão. As espinhosas. Os espinhos.A infeção. 40 graus. O enfermeiro-médico, competente. Uma semana de braço ao peito. Os crocodilos. Dois,apenas,à vista. Uma cabeça,na água. Um,filhote,a aquecer-se,ao sol,na margem. As cobras. Uma,para amostra,ainda assim,moribunda,por atropelamento. O rasto de outra. Mosquitos,nuvens. O repelente milagroso,perfumado e salvador. As pacaças fugitivas.Os passarinhos sentinelas,vigilantes,parasitas,denunciadores de perigos. As fugas. Uma delas,a da infeção. Se o homem tem medo do bicho,o bicho tem mais medo do homem. Casuais,os cruzamentos. As picadas,avenidas, umas,veredas estreitas,outras. Rastos de elefantes. Uma desgraça,a sua passagem. Seletivos,em primeiro lugar,os rebentos tenros. Um desastre. Os javalis em fuga,espavoridos,do fogo. As lagoas. Os tapetes de nenúfares. As cortinas de papiros. Os catos-candelabros. A dieta.Bananas,ovos,galinha,torradas,bolachas,papaia. Uma revelação,a papaia. Sempre. A papaína,digestor da carne mais dura. As galinhas de mato, as rolas,as perdizes,aos bandos. Em paz. Outros valores. Uma caçada,à noite,com holofote,para ver como era. Pares de olhos,fixos,como que hipnotizados. O tiro. O estertor,no escuro. O silêncio. Nunca mais. Os cágados pachorentos,nos caminhos,no fundo das covas,no fresquinho,de companhia, pacífica,com sardaniscas,formigas de todos os tamanhos,ratinhos. Charcos com sanguessugas. Charcos com bilharse. Botas de borracha,de cano alto,para travar investidas,nem sempre evitadas,por desníveis inesperados. Picadas de centenas de metros,entre barreiras de capim de todos os tamanhos. O que andaria lá por dentro?Covas espaçadas, de um metro de fundo, para nelas se enfiar e bisbilhotar. O sinal da cruz,discreto,como arma. O ajudante,o Armando,um jovem destemido,inteligente,alegre,leal,companheiro,sempre disponível,sem regateios. As chuvadas repentinas,barulhentas. As folhas das bananeiras,como chapéus eficazes. O acordar da floresta. Uma sinfonia de cores. Os tons de verde,do amarelo,do vermelho. O anoitecer,abrupto,os tons violáceos.O embondeiro,o senhor grave,de impor respeito. O catequista,talvez de quinze anos. Deambulava. Crianças rodeavam-no,disciplinadas. As avarias. Idas para casa,ao longo dos rios. Os cheiros. As queimadas,mestramente conduzidas. Os macacos,nas palmeiras. Macacos sem vergonha,certos da impunidade. A água filtrada. A água do banho,bombada diretamente do rio. Sabonetes "life-buoy". O mata-bicho,lá no palmar,no mato,onde quer que se estivesse. Aparecia,como por milagre. Sobras,nem uma. O Armando encarregava-se de as dividir, irmamente,com quem aparecesse. Peixes,muitos,de bocarras abertas,para não se perder o que viesse na corrente.O regresso. Ainda combalido da infe- ção. Uma aventura por estrada convertida em lago. Ao leme,um desenrascado. Pelos morros,não podendo,por pontes improvisadas. Sapadores eram três e capim não faltava. Quatro meses de arrasar e de novidades,a cada segundo. Para não mais esquecer.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

ALGURES NESTE VALE - FUNDILHOS

Era um homem alto,bem parecido. O basto cabelo negro,ondulado,não lhe caía pelas costas largas,mas coroava-o,à maneira romana. Alguém o recordara em três alturas marcantes do seu florido percurso. Na sequência,primeiro,em moço,alta noite,sentado num banco de laboratório,analisando. Já perdera muito tempo,pelo que tinha de compensar. Exigências da vida que escolhera,para a qual,aliás,estava fadado. Depois,um pouco lá mais para diante,dirigia-se, em bicicleta,um tanto esmagada ao peso de quem lá ia,ao encontro da sua cadeira de edil. As calças,via-se bem,tinham sido reforçadas por uns fundilhos de todo o tamanho. Para remate,poucos anos volvidos,chegou a vez de trocar a cadeira por um cadeirão. Era o que mais se apropriava à sua imponente figura. Ali,os fundilhos não ficavam bem. De resto,nunca se esclareceu porque os mostrara naquela vez. Mas uma razão devia ter havido,e uma razão de monta. Mas qual?

ALGURES NESTE VALE - POSTIÇO

Olhava para aquelas veigas,para aqueles campos de milho,para aqueles prados pontuados de vacas e de carneiros,para aquelas ramadas,para aquelas casas,para aquelas gentes. Apaziguavam,mas não extasiavam. E era assim,em êxtase,que deviam ser contemplados,como os tinham contemplado pintores,romancistas e poetas. Os quadros lá estavam,mas um não sei quê de postiço os envolvia. Os rios corriam mansamente,os campos rescendiam,os pássaros orquestravam. Mas as gentes,oh as gentes,tinham-se urbanizado. De muito pouco valiam romarias,ranchos folclóricos,evocações. Grande parte do passado fora-se irremediavelmente. A Miquelina divergia um quase nada do Conselheiro. As margens do Lima faziam lembrar as do Tejo. A estrada da Apúlia parecia a do Guincho. Para o reaver,esse passado perdido,só recorrendo ao registo certo. Ou então,mais pobremente,simular,à maneira de Lisboa em Camisa.

ALGURES NESTE VALE - ALARME

Ali parecia haver paz. Pombos faziam pela vida e o silêncio era a voz da esperança. Lá no alto presidia o santo.Dava para armar ali tenda. A tanto não se tinha chegado,mas bancas não faltavam. Mercadejavam-se ofertas para o dispensador de dádivas. Uma delas obrigara a trocos que só a caixa forte,a dois passos,dispunha.Aconchegada num assento,uma velhota rezava. Palavras não se lhe ouviam,mas os lábios dispensavam-nas. Assim estaria tempos sem fim,se não fosse a curiosidade de um atrevido. Há gente para tudo,até para perturbar conversas com o além.Vem aqui muitas vezes? A branca cabeça disse que sim. Mas estava dado alarme. Os pombos não voaram,que a inquirição fora de mansinho,mas a velhota logo se levantou.Também já se estava fazendo tarde. O sol escondera-se e as sopas encontravam-se lá à espera. O santo também a aconselhara a debandar,pois do atrevido tudo se podia esperar

ALGURES NESTE VALE - CASA CHEIA

Não é bem uma piscina ,mas para quem quiser ver uma naquele magnífico tanque festivo não exagerará muito. E chamar-lhe imperial,só se tiver a mania das grandezas. Mas como a Praça onde ele está é a do Império,então uma forte razão terá para assim lhe chamar. Como quer que seja,houve alguém que,há tempos,dele fez uso para umas ricas abluções. Não chegou a nele nadar e mergulhar,mas das escusas disto nada constou. Teria sido por isso que não se equipou como conviria. Vestia um roupão branco que arrastava pelo tapete de relva envolvente. Na cabeça,trazia um boné à marinheiro,branco também. Um estendal de coisas o acompanhava,bem uma dúzia de sacos e de saquetas,uma grande e vermelha toalha de banho,e,acima de tudo,um balde de cor rosa. Depois de se paramentar,encheu o balde com água fesca do tanque e passou a tratar da higiene dos pés. Não o fez de uma vez só. De vez em quando,palmilhava,energicamente,para lá e para cá,o tal tapete de relva. Um espetáculo. Ali,naquela cosmoplita Praça,admiradores não lhe faltaram. Pode dizer-se que teve casa cheia.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

ALGURES NESTE VALE - E AGORA ?

Só faltavam três perfis para examinar e o morro estava ali muito próximo. Lá se viam os embondeiros, sempre presentes,a deixarem a sua marca inconfundível,fazendo débil sombra,que as folhas ainda estavam recolhidas. A vegetação à sua volta era baixa e seca,ao contrário da do vale,em que dois trabalhadores se encontravam. Dum lado e doutro,uma muralha alta e verde,que ali a terra não tinha sede. De súbito,uma restolhada já conhecida. As pacaças tinham acordado,talvez avisadas pelas avezinhas que cuidavam da sua higiene e da sua segurança. Tinham de velar por elas,senão lá se iam aqueles festins de carraças gordinhas. Não sabiam que daqueles dois não lhes viria mal algum,pois não traziam arma capaz de as molestar. E agora? Agora,era fugir. E foi o que fizeram,cada conjunto para seu lado,que o respeito era mútuo. No caso delas,do homem nunca fiando. Elas devem ter voltado a descansar junto de outro embondeiro. E eles,ora eles,foram acabar a tarefa que tinham interrompido,a sua obrigação. De resto,não estavam ali para outra coisa.

ALGURES NESTE VALE - UM PRÉMIO

Não se sabia quem ele era,só se sabia que viera de longe,muito longe. E viera como que trazido por um chamamento imperioso,a que não pudera resistir. Era um homem muito rico e trouxera consigo uma grande parte da sua grande fortuna,em ouro,em prata,em pedras preciosas,cintilantes,coisas assim. Seria tudo isso para depositar,lá,no fim da longa jornada. Pelo menos,era o que constava,lá,de onde viera. Mas como é que ele iria imaginar,à partida,que cruzaria com tanta desgraça,se lá, de onde viera,nem um pobrezinho se via? Era capaz de ter enchido mais os alforjes,pois foi muito grande a tristeza que o inundou quando deu com eles vazios. E a tristeza que o tomara foi tamanha,que,para se livrar dela,adormeceu profundamente. O sonho lindo que ele teve. Nunca sonhara assim,apetecia,até,não acordar mais,depois de ter visto tanta desgraça. Parecia ser o sonho lindo um prémio pelo que fizera. Depois,lá nesse lindo sonho,ouvia-se,repetidamente,o que ele nunca mais esquecera. Para a outra vez,tens de trazer mais,tens de trazer mais...