quinta-feira, 19 de julho de 2018

ALGURES NESTE VALE - DE SOL A SOL

Era um espaço minúsculo,atravancado de fazendas e de fatos em diferentes estados de acabamento. Quase não cabia uma mosca. Mas dava jeito,pois o mestre era rápido a tirar as medidas e fazia apenas uma prova. Fornecia também lojas. Devia ter um exército a trabalhar para ele,no sossego das suas casas. E quase não descansava. Só aos domingos,e mesmo assim era muito bem capaz de os gastar com uns biscates. Estava no seu posto de sol a sol. Dizia ele que era por mor da velhice. Queria ter uma reforma que se visse. Mas se calhar não teve tempo para a gozar,pois era daqueles talhados para morrer no seu banco.Um moiro,dos das primeiras arrancadas. Às vezes,andava muito preocupado,com medo do fisco. Querem-nos levar ainda mais?Tinham prometido que não carregavam nos impostos. Já um homem não podia amealhar,desabafava. Talvez por isso,por mor de uma velhice descansada,era vê-lo a correr para o banco,a depositar o cheque recebido segundos antes.

ALGURES NESTE VALE - A ESTAÇÃO DO ENTRONCAMENTO

Era no verão,por altura dos Santos Populares. Seria bom que o povo tomasse contacto com a arte. E vai daí,fizeram uma exposição ao ar livre,num recinto convidativo,com árvores,com canteiros,num jardim. A um canto,arte abstracta,noutro canto,afastado,arte figurativa.E aconteceu,com frequência,o que era de esperar. Olhem para aquilo. Isto também eu pintava. Borradas,é o que tal coisa é. O meu filho,que anda na escola primária,podia ter aqui os seus desenhos. São muito melhores do que todos estes. Não têm jeito para fazer quadros que a gente entenda,depois,é o que se vê. Tanto tempo,tanta tinta,para sairem coisas destas. Olha a estação do Entroncamento. Era uma tela de grandes dimensões. Até parece que estamos lá. O homem sabe disto. E empurravam-se,todos queriam ficar bem ao pé,para não perderem nada. Sim senhor,isto é que arte. Pensam que a gente não consegue distinguir,mas estão muito enganados. Vejam lá como está tudo no seu lugar. O homem sabe do ofício. As plataformas,os comboios,os passageiros,os vendedores de pevides e de tremoços. E as cores?,cores de um rico dia de sol. Este comprava eu,se tivesse dinheiro. Ficava bem lá na sala. Agora, os outros,lá de trás,nem dados. Que diriam os parentes e os amigos se os vissem lá na sala? Que estávamos malucos de todo.

ALGURES NESTE VALE - NAACERA JÁ ASSIM

Há homens que lhes dá para colecionar damas. Uns,fazem-no pela calada da noite,outros,pela calada do dia,outros ainda,pela calada do dia e da noite. Um certo homem era desta terceira classe,todas as horas lhe serviam. Vivia numa terra,nem grande,nem pequena,uma terra assim-assim. Tinha todo o tempo para as suas meninas e uns tempos muito curtos para a sua esposa. Esta andava muito triste,o que não era para menos,mas não havia nada a fazer,ele nascera já assim. Era também um homem de caprichos. Coisa que lhe apetecesse,desde que não fosse a lua ou o sol,ou os seus muitos irmãos ou irmãs,tanto faz,era coisa possuída ou feita. E um dia,há sempre um dia,pensou em instalar a favorita mesmo em frente da legítima. Nessa mesma hora,ficou tudo arrumado. Já se podiam espreitar as duas. A esposa,coitada,à socapa,por detrás das cortinas,a outra,às claras,pavoneando-se. A ousadia,o capricho,ou lá o que se queira chamar,pode ter tido desenvolvimento,não se sabe. Era homem para isso e muito mais. O ideal seria que as duas casas comunicassem,ficando ele com a chave e a tranca. Ter-se-ia atrevido?

ALGURES NESTE VALE - DEVIAM SER MILHARES OU MILHÕES

Foram apenas quatro,ao todo,as que se dignaram mostrar,em média,uma por mês. Foi muito pouco,quase nada,mas não estiveram para mais. Deviam ser milhares,talvez milhões,as cobras daquele imenso e fresquinho vale. A primeira,coitada,já estava de partida para outro mundo,para o descanso eterno. Logo o tractor lhe havia de passar por cima. Torcia-se,ali naquele chão que ela tão bem conhecia,mas quase já sem alma. A segunda fora apanhada de surpresa. Já a gente não pode estar ao sol,teria pensado ela. Era o que estava fazendo no talude daquele apertado caminho de terra batida. Ainda levantou a cabeça, toda direita,olhem que eu estou aqui,mas só isso,que o jipe sumira-se,para não mais o ver. Uma aparição fugidia,não mais. A terceira estaria muito longe de pensar que iria ter aquele encontro. A noite fechara-se e ela lá se preparava para ir à sua vida. Já estaria atrasada para o jantar. E quem lhe havia de aparecer numa altura daquelas? Nem mais,nem menos,do que uma fila de gente a palmilhar aquele caminho tão seu conhecido. Eram muitos para ela. E assim,era melhor voltar para casa,no fresquinho capim da margem do rio. E foi o que fez,ela muito assustada,e eles ainda mais. A quarta não foi bem uma cobra,foi sim a sua imagem,pois dela só se viu o rasto,ali bem desenhado na tijoleira vermelha do alpendre da casa. O rasto terminava à porta. Devia ter entrado,pois havia apenas um. Estaria lá dentro, à espera. E naquele fim de tarde e naquela noite, não houve canto que ficasse por vasculhar, vezes sem conta,mas a cobra desaparecera,como por encanto.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

ALGURES NESTE VALE - A REBOQUE

O homem metia dó. Embora não fosse velho,longe disso,via-se bem que não era carruagem para aquela locomotiva. É que o seu cão não era um qualquer. Dava-lhe quase pelo peito e estaria na sua plena força. Aquela manhã de domingo estava de sol,mas um bocado fresca. Mais uma razão para o animalzinho querer sair de casa,pois lá dentro abafava-se. Além disso,tinha as suas necessidades. O dono que tivesse juízo. Teria andado na rambóia,deitara-se tarde,mas ele não queria saber de desgraças. Tinham de ir dar uma volta. Ordens são para se cumprirem. Levantara-se a custo,passara rapidamente pela casa de banho e enfarpelara-se ligeiramente,pois sabia muito bem o que o esperava. E assim,foi visto em calções,com camisa de manga curta,de trela na mão,a reboque do companheiro. O que ele tossia,o que ele tropeçava,o que ele cuspia. Algumas vezes esteve em risco de se estatelar. Era uma dor de alma. Mas o monstro é que não estava para compaixões. Quem quer um cão assim tem de estar à altura. Este dono não se importaria,porém,de fazer figuras tristes. Lá teria as suas compensações. Em primeiro lugar,dar-lhe-ia uma certa classe o exibir um tal adorno. Depois,livrá-lo-ia de assaltos,para os quais não estaria preparado. Não lhe custaria,pois,fazer alguns sacrifícios,como o de sair cedo da cama em manhãs de domingo,fizesse sol ou não.

ALGURES NESTE VALE - UM ETERNO RECOMEÇO

Há quem goste de começos,talvez para quebrar a monotonia da vida,quando instalada,em marcha de rotina. Lá terão as suas razões,de que eles são parte. E uma delas está bem á vista,e é a de verem a vida como um eterno recomeço. Pois não se morre,de algum modo,todos os dias,no sono? E a vida freme,a cada momento,em múltiplas transformações,como que renovando-se,num ser qualquer. Depois,ou ao mesmo tempo,a natureza envolvente está ali sempre,bem próximo,a dar mostras de que quer continuar. E é o Sol que não se esquece da sua função,nascendo todos os dias,num teimoso recomeçar. E é a Primavera,portadora de promessas,que, persistentemente,as vem trazer. E é ver as plantas,erva,arbusto,árvore,numa perpétua renovação,mesmo sem os cuidados do homem. Elas lá nascem,lá crescem,lá se desenvolvem,lá passam o testemunho,tudo muito naturalmente. A vida nelas é um contínuo mudar,mudar de cara. E mudar de cara é o que se passa com muitos,com todos,à semelhança do poeta,sem se deixar de ser,num eterno recomeço,a partir de si,de cada um. Não é de estranhar,pois,que haja quem diga que goste de começos,assumindo,afinal,a realidade de todos,que,a cada momento,de algum modo,vão renascendo.

ALGURES NESTE VALE - ENCANTADO

O homem acordara bem disposto. Estava um dia de sol. Esqueceu dívidas suas e de outros,esqueceu a tristeza que vai por esse mundo e apeteceu-lhe vadiar. E lá foi,não para muito longe,que as pernas já lhe iam pesando. De resto,ele estava convencido de que,tirando umas certas pequenas diferenças,esse mundo é todo igual. Tomou um transporte público,e ,quase não tinha aquecido o lugar,apanhou com um muito obrigado humilde,só por ter facilitado a saída do parceiro do lado. Começava bem a digressão. Lá onde desembarcou,eram só manifestações de lazer,a imitá-lo,ou ele a imitá-los,tanto faz. Uns andavam,para lá e para cá,tal como ele,uns saltavam,uns corriam,uns pedalavam,uns pescavam,uns torravam. Também voavam gaivotas e mourejavam duas ou três famílias de gatos. A estes,comida não faltava,que alguém deles cuidava,que bem se via. Mas um,naquela altura,estaria para outra iguaria virado,pois de teimosa perseguição uma gaivota se livrou. Tantos eram os que lá se entretinham,que na bonita igreja apenas se encontrava uma alma. Mas esta enchia-a toda.Era voz que encantaria o próprio céu. Bem precisaria este de tal encantamento. É que lá fora,um estranho grupo actuava. Estavam ali por causa de um morto,mas eles bem vivos se mostravam,bem vivos e bem dispostos. Ele também viera de lá encantado. E mais encantado ficou,quando, a uma inquirição sua , uma senhora pronta e alegremente o informou. Parecia estar à espera de que alguém dela precisasse. Correra-lhe bem,pois,a digressão desse dia. Era para,mais uma vez,agradecer a Quem dos dias se encarrega.

terça-feira, 17 de julho de 2018

ALGURES NESTE VALE - RIDÍCULO

Fizera-se velho bem cedo. Podia dizer-se,até,que nunca fora adolescente,tendo passado diretamente de criança a adulto. E ali estavam aqueles procedimentos que não tinham outra explicação se não a falta de uma estação importante,decisiva,no seu normal desenvolvimento.Usara chapéu durante muitos anos. Achava ele que assim é que estava bem,pois dava-lhe um ar mais de acordo com o que lhe ia na cabeça. Chegou a levá-lo para a praia,pondo-o mesmo no toldo ou na barraca. Ridículo,não era?Mas não estava só. Fora o caso de alguém que assim se compunha,numa altura em que ele já se aliviara um tanto. Refinara este. Mas não se tratava só de chapéu. Também vinha para a beira-mar de fato completo,de cor escura,e sobraçando pasta. Enquanto a mulher e a filha faziam a sua vida,de companhia com outros,ele embrenhava-se em leituras sérias,naquele preparo de fazer lembrar um cangalheiro.A mulher também tinha a sua originalidade. Uns dias antes do regresso,percorria as aldeias próximas,donde trazia meia dúzia de galináceos,a preços muito regateados. Dizia ela que era para dar para a viagem. Vinham no porta-bagagens,em cima umas das outras. Algumas chegariam meio mortas,reduzindo,felizmente,o alarido que o conjunto,mesmo assim,devia fazer,quando entrasse no prédio de luxo onde viviam. Eram dos tais que também poupavam no farelo.

ALGURES NESTE VALE- JEITO HUMILDE

Estava,naquela altura,livre de perigos como os de há centenas de anos,a vetusta abadia. De onde em onde,naquele passado longínquo,lá vinham eles,homens mais do norte,tentar reduzi-la a cinzas. Algumas vezes o conseguiram,que a história assim o relata. A tarefa não se mostrava nada fácil. Em primeiro lugar,tinham a barrar-lhes a caminhada uma alta e grossa muralha,que ainda lá se encontra,do tempo dos romanos. Atestava esta a irrequietude dessa brava gente.Transposta esta,deparava-se-lhes,a pouca distância,a garganta de um rio. Admirava que a tivessem erguido tão perto de semelhante inimigo. Só uma grande fé o poderá explicar. Quase à vista dele,voltavam a pôr pedra sobre pedra. Mas seria sol de pouca dura. Nada,porém,os impedia de recomeçar. E lançavam-se,de novo,à empresa,talvez com redobrada determinação,esperando que dessa vez fosse para sempre. Lá se encontra hoje,apontando,porventura mais tranquilamente,para o céu,não tão magestática como outras suas irmãs,mas em jeito humilde,que também atinge as alturas. Muito perto,estende-se um parque que a liga ao rio. Teria sido por aquele chão que se tinham feito as investidas de variado sucesso. Naquela altura,eram gritos de crianças,nas suas brincadeiras,que se ouviam.

ALGURES NESTE VALE - O VIL METAL

Eram atraídos como formigas ao açúcar. Ali havia dinheiro,mais do que noutros cantos,de maneira que as"formiguinhas" não demoraram a aparecer. Tinham passado palavra,ou nem isso,que o cheiro guiava-as. O dono do cofre exultava. Mexera-se,usara as suas influências,e ali estava o prémio. Pode dizer-se que era senhor de um estado dentro dum muito maior,mas este sem cheta. Sentia-se o mestre dos mestres,rodeado de quase uma dúzia de jovens promissores. Foi,porém,sol de pouca dura.Por uma razão desconhecida,a fonte secou. Afinal,as "formiguinhas" tinham vindo ao engano. O mestre era de fibra e não desanimou. Convocou os pupilos e fez um apelo à sua generosidade de jovens. A fonte secara,sem ele contar,mas esperava que em breve voltasse ao que era antes. Esperava deles resistência às más horas e queria vê-los com disposição para continuar ali. Não seria por falta do vil metal que o fossem deixar. Agora é que ele ia ver quem eram os fortes. O discurso fora patético,dirigido ao desinteresse,à abnegação,à entrega inteira a uma causa nobre,a da ciência. Ouviram-no todos com muita atenção e atreveu-se um a dizer de sua justiça. Apreciavam muito a sua confiança,mas havia uma questão muito importante,que estava a ser esquecida. É que,em primeiro lugar,está o viver,e para isso precisamos do que aqui deixou de haver. Não é o dinheiro essencial,mas sem ele nada feito. Depois de o voltar a ter,então filosafaremos. Não foi bem assim,mas para o que é serve muito bem. E ali terminou a sessão,indo cada um para seu poiso,pensar. A pouco e pouco,porque os prognósticos não davam sintomas de melhoria breve,foram indo à sua vida. Fora uma pena aquela debandada,porque o barco era bonito e o comandante ilustre e simpático. O primeiro a dizer adeus parece ter sido o da sentença consagrada. Lá teria as suas fortes razões,maiores do que as dos out

ALGURES NESTE VALE - UMA SANGRIA

Não tinha havido invasão de gente bárbara,não tinha havido guerra,mas eles aí vinham em magote,homens,mulheres,crianças,pejando caminhos,amontoando-se em salas de espera e nas plataformas das estações dos comboios. O que os movia? Era a fome,simplesmente. Não tinham nada,a não ser a força dos seus braços e iam vendê-la. Nas suas terras, não havia quem deles precisasse,mas lá mais para baixo,onde se estendiam searas a perder de vista, e vinhas e olivais de muitos milhares de pés,contavam com eles e já estavam à sua espera. Eram menos exigentes,sendo ,assim, os preferidos. É a luta pela vida. Ficavam ainda muito agradecidos. Lá se arranjavam como podiam. O que era preciso é que no fim,quando do regresso,sobrasse alguma coisa de jeito,de modo a ampará-los no resto do ano. A palavra de ordem seria,pois, poupar,mesmo em coisas essenciais. Andaram nisto anos e anos. Era a ignorância,o alheamento. Não lhes ocorria outra saída. Mas um dia,alguém deu aviso. Olhem que há para aí uma maneira de a gente se arranjar melhor. Dizem que em França e noutros países há para lá muito trabalho e ganha-se mais. Vamos lá experimentar. Foram,gostaram e foi uma sangria. As condições,no começo,não foram lá grande coisa,mas a isso estavam eles bem acostumados. Mas melhoraram com o tempo. Assim,valia a pena,diziam os coitados,com alguma mágoa. Sim,porque aquilo não era a sua santa terrinha. Havia que ter paciência,que era o que não lhes faltava. Voltariam um dia,de vez,quando amealhassem coisa que se visse.

ALGURES NESTE VALE - HORAS SEM FIM

O barco naufragara,na viagem de regresso de grande e perigosa aventura. Só ele se salvara,mas deixara lá,nas águas com sal de muitas lágrimas,uma perna e um braço. Não se sabe como está ele ainda vivo,passados que foram tantos anos. Até já se lhes perdeu o conto. Não lhe tem valido,para seu sustento,qualquer tensa,por minguada que fosse. Teria de ser poeta,como o vizinho do canto. Assim,tivera de se desembaraçar,escolhendo um local estratégico,a entrada da memória de um épico empreendimento. Ali permanece horas sem fim. Sentado num degrau,à esquerda ou à direita,tanto faz,mostra as ausências,esperando que um copo translúcido se vá enchendo. Assim tem aturado. É isto mais do que justo,pelo muito que ele, e tantos como ele, fizeram. Mas,atendendo,pelo menos,à solenidade do lugar,já se podiam ter lembrado dele,arranjando-lhe um poiso mais confortável.

ALGURES NESTE VALE - ERA VERDADE

Aquelas terras não lhes pertenciam. Eram foros antigos. Teria sido transação sob palavra ou com o fazer de um documento que se sumira. Estavam agora ali irreconhecíveis. O trabalho de gerações tinha feito o milagre. Além do chão,tornado úbere,havia casas e poços. Certo dia,um dos herdeiros achou que aquilo não podia continuar assim Tinham de sair de lá,que as terras eram dele. E era verdade,à face da lei. Não queriam acreditar os coitados. Então o que vai ser da gente? Para onde iremos morar? E quem nos paga os melhoramentos que aqui fizemos? Se nos querem tirar daqui,há-de ser sobre os nossos corpos. Ainda tiveram ilusões. Aquilo era uma muralha que metia respeito. À frente,dispunham-se as mulheres com os filhos,à laia de tropa de choque. Atrás,ficaram os homens,para os reforços. Foi uma luta desigual. No chão,que tinha sido a cama de muita semente,jaziam, estendidos ,alguns para sempre. Só que destes apenas nasceram ódios.

ALGURES NESTE VALE - ROLA VELHA

Era ridículo e comovia.Estavam os dois de pé,a uma esquina de rua movimentada. Ela,como sempre,muito gorda,mal trajada e mal penteada. Ele,uma sombra do que fora,com aspeto de servente de obras em férias,talvez forçadas. Há que tempos se não viam. Eram marido e mulher. Ele abalara,em dia de grande desespero,e ela para ali ficara com a carga toda,uma carga de filhos e de netos. Os olhos que ela lhe deitava,só visto. Deles, soltar-se-iam feixes de raios de altíssimo poder sedutor. Não seriam bem dela,mas da jovem que tinha sido. Afinal,ainda vibrava. Estaria pronta para perdoar e recomeçar,assim ele quisesse. Mas toda aquela figura dele,curvada,de chama mortiça,parecia não dar qualquer esperança. Aquele coração já seria como uma pedra,insensível a mavios de rola e muito menos de rola velha. Era ridículo e comovia.

ALGURES NESTE VALE - FEIRA DA LADRA

Tempos atrás,o pacato jardim fora percorrido por uns sujeitos munidos de tintas,de pincéis e de réguas. Que brincadeira será esta?,interrogaram-se alguns pardais, que andavam por ali,na boa paz. A pouco e pouco,aqueles arruamentos foram-se enchendo de rectângulos amarelos. Ainda numeraram alguns,mas,ou porque se acabasse a tinta,ou porque houvera grande esforço,desistiram. Aquilo,na altura,ficou-se por ali. Para que seria um traçado daqueles? Fazia lembrar um jogo de crianças. Talvez fosse para isso,pensaram,e qualquer dia teriam ali grande festa. Pois muito se enganaram. Ideias de gente simples. Certo domingo,logo de manhazinha,ainda mal o sol despontara,deu-se uma invasão. Homens e mulheres,com sacos e saquetas,com malas e maletas,ocuparam aqueles rectângulos. E daqueles baús,saíram os mais diversos e disparatados objectos,a maior parte muito velhos e outros cheirando a mofo. Paulatinamente,seguiu-se outra invasão. Eram os curiosos ou os interessados em tais bugigangas. Enfim,um desassossego. Olhem,a nossa vida,lastimavam-se os pobrezinhos. Então,isto é para durar? Muitos voaram para outras paragens,que aquilo não podiam suportar. Só regressaram,quando foram avisados por uns mais velhos,de ouvido mais duro,que vieram a saber que aqueles ajuntamentos só se fariam no último domingo de cada mês. Era um dia de sacrifício,apenas. Gostavam muito daquele jardim,mesmo ali ao pé do grande rio,e custar-lhes-ia deixá-lo. Que outra desdita não os afectasse.

ALGURES NESTE VALE - HORAS À JANELA

Do seu andar,via-se uma ampla e variada paiasagem,que não a atrairia por já sobejamente a conhecer. Estaria mais interessada no primeiro plano. A poucos metros,lá em baixo,desenhava-se uma espécie de fronteira. Para além dela,perfilavam-se vários prédios com locatárias especiais. Não teria necessidade de binóculo,mas talvez o tivesse usado. O movimento de entradas e de saídas não parava,dia e noite. Teria sido apanhada de surpresa. Não o esperaria,mas o espectáculo ter-lhe-ia agradado. Passaria horas à janela. As observações lá do alto não a teriam satisfeito. Teria querido ver mais de perto,o que era simples. Bastava abrir uma porta. Depois,eram apenas uns passos em frente ou para o lado,direito ou esquerdo,tanto fazia,e subir meia dúzia de degraus. Deve ter feito uma incursão de reconhecimento. As surtidas ter-se-iam repetido e prolongado,passando a aborrecer o regresso a casa. Finalmente,optou.

ALGURES NESTE VALE - MAIS UNS PATACOS

Eu bem sei o que ele quer . Vai ver,vai sondar,e se aquilo lhe convier manda recado a dizer que arrangem outro. Mas comigo não brinca. Pois não o deixo ir. Era o que faltava. Quem manda aqui sou eu. Dá-se-lhe um emprego,que podia ser para um mais necessitado,e,depois,é isto. Pelo menos,foi o que constou. Recebeu uma informação favorável do diretor da casa onde ele trabalhava,depois outra e ainda mais outra,e as três foram rejeitadas. Já era teima,de ambos os lados. Uma quarta não o apanhou,pois tinha ido dar uma volta. E o seu substituto disse logo que sim. Que mal causava ao serviço o rapaz estar três meses ausente,ainda com a vantagem de não lhe pagarem,pois ia com licença sem vencimento? Quando veio lá da volta e soube do que se tinha passado,foi um nunca mais acabar de ameaças. E o pobre do moço,lá longe,recebe,muito perto do regresso,uma carta. Olha que ele está decidido a deixar-te na rua. Se apareceres cá,um só dia que seja,depois da licença expirar,encontras a porta fechada. E ele teve de pôr pernas ao caminho,ainda febril,por infeção de um espinho mau,pois ninguém gosta de ficar na rua. O pobre do moço,afinal,tinha ido apenas ganhar mais uns patacos,mas ele de patacos não queria saber.

ALGURES NESTE VALE - O SOL

Naquele fim de tarde,parecera-lhe maior o Sol,quase a esconder-se,ou ir para a caminha,lá longe. Muito lentamente sumira-se,como era seu hábito,deixando um rasto que perdurou. Lembrara-lhe alguém que o desejava perseguir,com ele sempre à vista. Se tivesse muito dinheiro,havia de tentar. E também um outro que ia para um miradouro para dele se despedir. Teria receio de o não ver mais? Talvez pensasse que o seu regresso dependeria do seu adeus. Pois naquele fim de tarde,tirando ele,mais ninguém se estava interessando ali pelo Sol. E eram muitas as que lá se encontravam. Tratar-se-ia de uma coisa banal,farta de se repetir. Não valeria a pena um simples olhar. No outro dia,lá o teriam novamente. Até quando? Nem ele saberá,coitado,ali sujeito àquele destino.

ALGURES NESTE VALE - ATÉ CANTAVA

O fragor daquela nascente queria dizer alguma coisa de muito bom sobre o que se estava passando em demais lugares. Ainda há bem pouco tempo era só um tímido fio que dela brotava,embora isso quase apontasse para um milagre,tantos tinham sido os meses em que não viera do céu água que se visse. Apenas uns míseros borrifos,ali e acolá. Mas naquela altura,não. Podia dizer-se que até cantava,e forte,pois se ouvia a sua voz ao longe. E era ver aquela água correndo por caleiras,dia e noite,sem descanso. Estava ali a fazer muita falta uma albufeira. Queria dizer que o manancial que lhe dava vida se revitalizara. Queria dizer que a terra em seu redor ,e ,porventura,de afastados sítios,que o sitema de vasos comunicantes é uma realidade,se saturara,dispensando água que estava a mais,e que seria muita. Tendo água caído em abundância por muitas bandas,não seria muito ousado pensar que coisa similar estivesse ocorrendo nelas. E que muitas nascentes tivessem readquirido a sua função,alimentando ribeiros e estes rios. Parecia ser este regresso a uma vida plena,depois de tanto tempo de angústia e de perdas vultosas,um caso para ser noticiado com júbilo. Mas não,casos destes pouco interessavam.

ALGURES NESTE VALE - SÓ COM SETE

Não resta dúvida que isto não vai ser nada fácil. A senhora era muito republicana,mas não se importava nada de ser marquesa, condessa,uma coisa assim,com os respetivos apetrechos,claro. Calhava-lhe mesmo bem,agora que já ia no declinar da vida. Não havia de calhar,e não só a ela? Ah, este bichinho lá de dentro sempre a sonhar com grandezas. Era o caso,com os devidos descontos,daquela outra senhora que só aceitaria um certo lugar se lhe dessem seis criados,seis. Ela,coitada,com a categoria de servente já há uns bons anos,sem possibilidade de ter um sequer,visto o marido estar também como ela. A pedir,ou a exigir,ao menos,que seja coisa de jeito. Se não,o que se lhe haveria de chamar? Sim,que ou há moralidade ou comem todos. Sou republicana,pois então,com muita honra e pouco proveito,mas se vir que doutro modo me arranjo melhor não hesitarei. Então,não vai com cinco? Nem pensar nisso. Só com seis. Mas pensando melhor,ficaria mais bem servida com sete. Só com sete,está dito.